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Por incrível que pareça, dormi muito bem na véspera da largada do Ultraman. É verdade que devo isso ao relaxamento que fiz ao deitar a cabeça no travesseiro. Mas se o nervosismo estivesse exagerado, não haveria relaxamento que resolvesse.

Ao acordar pensei em tudo que tinha pela frente. Até agora, relembrando aquele momento, fico com o coração acelerado.

Saí do meu quarto e dei um grito de Tarzan com direito a punhos batendo no peito e tudo mais. Era a hora da equipe Trilosofia toda começar a funcionar.

Enquanto eu tomava café da manhã, todos se ajeitavam. Logo o Almir estava carregando as cestas com toda a alimentação e equipamentos para os próximos dias de prova. A quantidade de coisas era considerável!

Na hora de seguirmos para o píer, tentei encontrar uma música no rádio do carro que representasse aquele momento. Acabamos ouvindo “I gotta feeling”, sucesso da banda Black Eyed Pees. A música fala sobre otimismo e “a sensação de que a noite será boa”. Pareceu-me apropriado, pois, se eu chegasse ao final do dia inteiro e dentro do tempo limite, a noite seria boa mesmo.

Chegando ao píer ainda estava noite e o circo do Ultraman estava em polvorosa. As 35 vans de todas as equipes estavam estacionadas naquele pequeno trecho da Ali’i Drive.

O píer estava tomado pelos atletas e suas equipes. Na tradicional fila do banheiro masculino, estava a elite do Triathlon de ultra-distância mundial (e eu também). Conversei com Richard Roll, atleta americano eleito por revista Men’s Health como o homem mais em forma dos Estados Unidos. Ele comentou comigo que para ele, o pior era a exaustão mental causada pelas preocupações com detalhes de última hora (“…trouxe tudo que precisava?! E a comida será suficiente?!”). Depois da largada, segundo Roll, é que os atletas começam a relaxar a cabeça. Era como eu estava me sentindo também.

Logo encontramos meu caiaqueiro, Regan Steelman e sua esposa Julie.  Eles nos foram indicados pela organização da prova e foram simplesmente sensacionais. Julie trouxe Leis (colares tradicionais de flores) para todos da equipe e um especial (normalmente usado apenas pelos guerreiros havaianos) para mim.

Quase ao amanhecer, naquela ilha tão remota do Pacífico, nos demos as mãos e formamos um círculo. Julie então entoou uma linda canção em havaiano, convocando a proteção dos deuses da ilha. Não preciso nem dizer que foi um momento inacreditável.

Terminada a oração, era hora de vestir a roupa de neoprene, passar filtro solar e consumir a última alimentação. A despedida foi emocionada e todos estavam chorando. Não poderia ficar faltando o sinal da cruz feito na testa que minha mãe sempre faz nessas horas.

Todas as equipes assistiam de cima do píer, enquanto apenas os atletas e alguns fotógrafos permaneciam na praia. Desci para os degraus para a praia e entrei no mar para algumas braçadas.  Até no lusco-fusco da madrugada era possível ver os corais no fundo. Esse mar do Hawaii não existe. Voltando à praia fiquei me alongando e cumprimentando os demais atletas. Pensei que tudo aquilo parecia um sonho e que um dia contaria essas histórias para meus netos que ouviriam com olhar incrédulo.

O sol ainda não havia aparecido totalmente no horizonte, quando uma contagem regressiva envolvendo todo o público elevou a adrenalina ao máximo. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1….e ouvimos a sirene. Deslizei para dentro d’água. Comecei a encaixar as braçadas lado a lado com o píer e na saída da baía encontrei meu caiaqueiro Regan e meu técnico Almir (em um caiaque duplo). O Almir acenou e fez sinal para frente. Embora o começo da prova não tenha uma correnteza muito forte, dá para perceber que a correnteza é contrária desde o início. A água mais fria da correnteza passava pelo corpo como se estivesse nadando em um rio (um rio não muito caudaloso, mas constante).

Segui paralelo ao caiaque, apenas olhando os sinais do Almir. Depois de uns 10 minutos, o Almir fez sinal de positivo, avisando que o ritmo estava bom. Passados 40 minutos, parei alguns segundos para me hidratar pela primeira vez. O gentil Regan também procurou me motivar nessa hora (“You are doing great, Mario” – “Você está indo muito bem, Mario”).

Aumentei um pouco mais o ritmo e seguimos adiante. Pelo caminho senti três pequenas queimaduras de água-viva, uma na mão e duas no parte entre o lábio e o nariz. A grande quantidade de águas-vivas nessa época do ano é a razão pela qual o uso de neoprene é liberado nessa prova. Mesmo com o neoprene, todos os caiaqueiros levam consigo um remédio para primeiros-socorros em caso de queimadura por água-viva. Como as queimaduras apenas doeram, mas não me machucaram, não foi preciso perder tempo passando a tal medicação.

Na metade do trajeto, havia um trecho mais agitado, com marolas mais altas. É que nesse trecho, existe um refluxo do mar que volta após chocar-se com a costa. As ondas indo e voltando ao mesmo tempo chacoalham tudo.

Em seguida, comecei a pensar que a natação estava “na hora de acabar”. Foi então que olhei para a costa e vi o hotel Outrigger (hotel oficial da prova) e vibrei com um: “Opáaaa!”. Era o sinal de que a transição já estava próxima.

Mas antes de poder deixar a água, havia um último obstáculo. Era a forte correnteza da entrada da baía onde ficava a chegada. O trecho é famoso pela intensidade para um trecho de menos de 300 metros.

Na véspera da prova, um dos organizadores nos contou sobre o famoso triathleta Cowman (já fez todas as provas de IronMan do mundo, correndo a maratona com um chapéu de chifre). Quando participou do Ultraman, alguns anos atrás, Cowman ficou preso na correnteza na entrada da baía por mais de 40 minutos. E ele acabou desistindo.

Na entrada daquela baía era hora de mostrar porque fiquei o ano inteiro treinando natação com elástico estacionário por períodos de 30 minutos, ao final das sessões de treinos. Mirei na baía e apertei o ritmo das braçadas. Estava nadando em ritmo super-acelerado, respirando a cada quatro braçadas. Era a instensidade que eu usava para arrebentar os elásticos ao final das sessões. Hehehe. Mas olhando o recife no fundo do mar, dava para ver que eu me deslocava no ritmo de uma pessoa caminhando muito lentamente. Realmente aquela correnteza não era só lenda.

Depois de alguns poucos minutos em “ritmo de elástico”, venci a correnteza sem maiores problemas. Quem assistia da margem, viu vários golfinhos por lá. Confesso que eu só tinha olhos para a linha de chegada.

Depois de ficar de pé, investi algum tempo em abraçar o Regan e o Almir, antes de correr pelo pórtico de chegada. Eles foram perfeitos. Meu tempo de natação foi de 3 horas e 09 minutos.

Chegando à zona de transição, minha equipe estava toda me rodeando. Fui logo para o chuveiro, onde depois de deixar a água correr sobre minha cabeça, respirei profundamente por três vezes. Era uma forma de “dividir o dia ao meio”, por assim dizer.

Troquei de roupa e fui besuntado de filtro solar pela minha namorada e pela minha mãe.  A transição toda durou cerca de dez minutos.

Desde o primeiro metro percorrido ao deixar a transição, o relevo é de uma subida super íngreme. Nessa hora, lembrei dos colegas triathletas que falavam sempre sobre a “Subida da Raínha”, um trecho curto, mas muito difícil do trajeto do GP de Triathlon em Balneário Camboriú. Aquela primeira subida do Ultraman era como a famosa “Subida da Raínha”, só que lá a subida tinha cerca de seis quilômetros de extensão.

Aquela subida é como um tapa na cara. Além do desconforto natural dos primeiros quilômetros, uma subida tão forte como aquela o faz pensar: “E se os outros 145 km de ciclismo que estão pela frente também forem assim?!”.  Hehehe.

Os primeiros 35 km da prova são de forte subida. Após isso, um trecho de sobe e desce, um pequeno trecho de descida e para finalizar, a subida do Vulcão Kilauea, com cerca de 40 km.

Logo após os primeiros quilômetros da “subida alienígena” do início, reencontrei minha equipe. Eu estava com muita sede e calor. Nessas primeiras paradas rápidas, bebi muito líquido sob a forma de Accelerade, Gatorade Endurance, água e Pepsi Diet. A possibilidade de desidratação parecia o maior perigo a ser atacado naquele momento.

Logo, o pior do desconforto do esforço inicial ficou para trás e a distância começou a passar mais depressa. Mas quando cheguei aos campos de lava do sul da Ilha, encontrei um forte vento contra. O vento era tão forte que chegou a arrancar dois dos três adesivos com o meu numeral da prova. Os poucos trechos planos ou de descida leve pareciam subidas. O vento contra estava prejudicando minha velocidade média.  A minha mente estava ocupada com os cálculos da estimativa para do horário da minha chegada. No Ultraman não é possível relaxar o ritmo em nenhum momento. Eu já conhecia o trajeto e à cada curva aguardava a hora em que chegaria ao sul da Ilha, no ponto com mais vento do primeiro dia. Esse ponto também marcava o final dos campos de lava e o início da subida do Kilauea.

Quando finalmente chegasse ao sul da ilha, teria o refresco de alguns poucos trechos planos e de descida, muito sinuoso e com curvas fechadas. Mas como estava atrasado, não podia aproveitar para descansar.

Apesar das curvas fechadas e do vento forte, procurei contrapor as fortes rajadas com uma leve inclinação do corpo e segui em ritmo suicida. Ao menos para uma pessoa cautelosa como eu, andar sempre beirando os 50 km/h na descida, com curvas fortes e com o vento chacoalhando a todo instante era algo que me deixou com a adrenalina a mil.

Esse trecho mais perigoso é também o mais bonito do primeiro dia de prova. A vista do mar selvagem e azul turquesa do sul da ilha era inacreditável de tão lindo.  O Hawaii te faz sentir abençoado a todo momento, como se você fosse um náufrago com a sorte de ter encontrado essas ilhas. A imensidão nunca deixa que se esqueça que está no meio do oceano sem fim.

Subida infinita

Começada a subida final de cerca de 40 km até o topo do Vulcão Kilauea, a coisa estava dura. A subida é contínua e parece infinita. Confesso que nessa parte do primeiro dia, estava me sentindo péssimo. Eu consigo diferenciar pensamentos genuinamente meus dos pensamentos influenciados por alguma reação metabólica do organismo ou pelo instinto natural de sobrevivência. Normalmente uma pessoa positiva e perseverante, logo estava pensando no prazer que teria em me jogar à beira da estrada. Hehehe. O pior é que não pensava em parar a bicicleta e depois me deitar. Eu pensava em me jogar ao chão com a bicicleta ainda em movimento. Imaginava com deleite a pele dos braços e pernas raspando e sangrando no asfalto, enquanto buscava o meu leito esplêndido no acostamento daquela subida eterna.

Contemplei a ridícula e dramática cena que rondava minha cabeça e não foi difícil perceber que não se tratava de um pensamento “originalmente meu”. Certamente, aquelas idéias eram vindas de algum problema metabólico que estava enfrentando. Não sabia o que acontecia, mas sabia que aquilo não era normal.

Sendo o pensamento meu ou não, ele só me deixaria em paz se conseguísse substituí-lo por outro de minha autoria. Eu não desistiria por nada nesse mundo, mas o esforço seria bem mais fácil se minha cabeça estivesse recheada de pensamentos mais leves. Procurei então, um pensamento forte o suficiente para dar conta do recado. Foi aí que me ocorreu que se eu me rendesse àquela “atração fatal pelo asfalto do acostamento”, teria que explicar ao meu sobrinho de seis anos o porquê de eu ter desistido. Eu me imaginei tendo a suposta conversa com ele e logo vi que aquilo seria mesmo injustificável. O asfalto do acostamento perdeu o seu poder de sedução depois disso.

Muitos quilômetros mais tarde, o odômetro da bicicleta já marcava quase 145 km. A cada curva, imaginava que iria enxergar a entrada do camping onde ficava a chegada. Foram muitas as “últimas curvas”, até que lá pela quinta ou sexta, avistei há uns 500m o fiscal da prova.

Quando me aproximei, toda a dificuldade tinha ficado para trás e estava pronto para a minha primeira das três linhas de chegada do Ultraman. Ao passar pelo fiscal, ele perguntou qual era o meu número  (mas eles haviam sido levados pelo vento contra dos campos de lava). Enquanto virava a curva para entrar no camping, eu disse a ele: “I am Mario, I am Mario”. E ele falou no WalkieTalkie: “Mario is coming in, Mario is coming in!” (“O Mario está chegando, o Mario está chegando!”) Numa prova como o Ultraman, você nunca é só um número! O Ultraman vai me deixar mimado para sempre. No Ultraman o tratamento é VIP do começo ao fim.

Os últimos 200 metros até a minha primeira linha de chegada do Ultra foi como se eu flutuasse no asfalto. O dia havia sido dificílimo. Mas eu tinha conseguido e amanhã continuaria minha jornada.

Cruzei a linha de chegada para abraçar toda minha equipe. O locutor da prova foi sensacional e sabe coisas sobre sua vida que nem você sabe. Ele narrou minha chegada falando fatos sobre mim e sobre meu desempenho naquele primeiro dia. Foi muito emocionante abraçar minha namorada, minha mãe e meus amigos queridos que lá estavam.

Eu chorei com todos eles, por uns 5 segundos. Eu digo 5 segundos porque depois disso, eles me deram uma blusa e entramos logo na van. Estava bastante frio e era preciso começar “a recuperação” imediatamente.

Fomos para a pousada no vilarejo próximo e fui direto para o banho. Minha namorada me assessorava enquanto minha mãe já começava a preparar o jantar.

Ao entrar no banheiro, um sinal de alerta: não conseguia urinar. Não dei muita importância para o fato na hora. E com o cansaço do final do dia, cheguei à improvável conclusão de que havia me hidratado com a quantidade exata de líquido que meu organismo precisava, nem uma gota a mais ou a menos. No meu raciocínio prejudicado pelo desgaste emocional e físico do dia, era por isso que não tinha urina na bexiga.

Só fui entender o que estava acontecendo quando já estava de volta ao Brasil. Relatei tudo o que sentira durante a prova e vendo as fotos, meu irmão que é médico fez o diagnóstico. Mas isso, vou contar após relatar os três dias de prova.

Nos primeiros dias na Big Island, dividimos nosso tempo entre a tentativa de adaptação ao fuso horário local (8 horas a menos em relação ao Brasil), os últimos detalhes de organização e um pouco de turismo pelos pontos turísticos da ilha.

Passados apenas dois dias em Kailua-Kona, já era hora de buscar o restante de nossa equipe no aeroporto.

Eu aguardava bastante ansioso por esse instante.  É que um dos motivos desse projeto todo era conseguir trazer meu técnico Almir João Brandalize, da Triax Multisports ao Hawaii.

O Almir é um daqueles técnicos raros que além da competência, oferecem aos alunos inspiração e muito apoio na busca de seus objetivos. Comecei em suas aulas de natação na Cabral Natação e Fitness há cerca de sete anos. Obeso e sedentário, eu nadava na raia do canto, tentando não atrapalha “os nadadores de verdade”. Com muita luta e o incentivo do meu técnico, emagreci, evolui e me empolguei pelo Triathlon. Se não tivesse dado aquele primeiro passo, talvez nunca tivesse mudado a minha vida.

Por isso tudo, trazer o Almir ao Hawaii era uma forma de homenageá-lo e agradecer pela força que me deu através dos anos.

Com os Leis (colares de flores) à mão, fomos todos em estilo havaiano ao aeroporto. Minha mãe e minha namorada usavam vestidos havaianos, sendo que minha camisa havaiana e o vestido de minha namorada eram do mesmo tecido.

Quando apareceram no portão de desembarque, vi o Almir com os olhos marejados, a sua esposa Luciana eufórica, o Jesse e a Thaís rindo. Todos emocionados e com sorrisos de orelha a orelha. Fizemos nossa festa ali mesmo. Havíamos nos visto pela última vez havia apenas quatro dias, mas aquele foi um emocionante reencontro para todos.

Transição 1 do Ultraman

No dia seguinte, após um breve passeio pela famosa rua Ali’i Drive, seguimos para o reconhecimento do trajeto da prova.

Começamos pelo local da chegada da natação e seguimos até onde seria a chegada do primeiro dia de prova, no topo do Vulcão Kilauea. No caminho, fizemos um picnic improvisado na beira da estrada, no sul da Ilha. Todos ficaram muito impressionados com a força do vento nesse trecho. As árvores já crescem inclinadas, tamanha a força e a constância do vento no local.

Àrvores crescem inclinadas, tamanho o vento.

Chegamos ao topo do Kilauea no meio da tarde e, após conhecer a cratera do vulcão, descemos novamente até o litoral, onde ao anoitecer vimos a lava incandescente escorrendo até cair no mar. Um espetáculo indescritível.

Jantamos em uma pizzaria em um pequeno vilarejo no caminho. Todos muito cansados (pelas atividades e pelo fuso horário) e com fome, tivemos um jantar dos mais divertidos. Enquanto jantava, tive a sensação de que mesmo sendo algo corriqueiro, aquele jantar seria um desses momentos lembrados com nostalgia por toda a vida.

Após uma noite de sono no frio do topo do vulcão Kilauea, deixamos nossa pousada e seguimos para conhecer um dos trechos mais lindos do Ultraman: “A Estrada Vermelha”.  Trata-se de uma estrada que segue um trecho de costa com penhascos e mar muito agitado. As árvores são muito frondosas e em vários trechos, envolvem a estrada como que em um túnel. Atualmente a estrada é asfaltada (e, portanto, preta), mas o nome vem do solo vermelho da região.

Red Road

Red Road

Team Trilosophy na Red Road

Ao final desse dia, voltamos para Kona para o início de nossa semana de atividades da prova. Semana essa que culminaria as 6:30 da manhã de sexta-feira, no píer de Kailua-Kona: a largada do Ultraman.

Na terça-feira à noite, estivemos na “Bike clinic” na loja Bike Works, primeiro evento da prova. Lá tive a oportunidade

Bike Clinic

de conhecer a maior parte dos competidores e nos explicaram os problemas mecânicos mais comuns enfrentados através dos anos. Foi também o momento de pela primeira vez encontrar pessoalmente com o grande Paulo Calil. Médico do interior de São Paulo, Paulo foi um dos meus maiores incentivadores nessa jornada ao Ultraman. Ao buscar mais informações sobre a prova, a organização me passou o contato do Paulo e nos correspondemos por e-mail desde então.

Na quarta-feira, era o momento do procedimento de inscrição. Portando a grande lista de documentos necessários, fui o primeiro a chegar para me inscrever. Confesso que tive que usar todas as forças para não chorar de emoção quando me entregaram a toca da natação: verde-limão, dizendo ULTRAMAN nas laterais. Nunca vi uma touca tão linda assim!

Entre os demais atletas, o clima era de reencontro. Alguns chegaram com suas equipes com uniformes estampando uma quantidade enorme de logomarcas de patrocinadores. Outros traziam consigo sua própria equipe de filmagem profissional, com direito àqueles técnicos segurando os microfones pendurados no ar, acima da cabeça e tudo mais. Todos os anos, um ou dois atletas tem documentários feitos sobre sua participação na prova.

O momento da inscrição é quando o atleta e sua equipe ouvem as explicações detalhadas dos organizadores. Cada atleta recebe um fichário com extenso e detalhado material sobre o trajeto da prova, orientações em caso de emergência, regulamento, etc. Além, é claro, de uma listagem com o nome e número de cada um dos demais competidores, para que todas as equipes possam incentivar todos os participantes (e prestar ajuda em caso algum deles necessite).

Nas mesas dos jardins do hotel onde os eventos da prova ocorreram, várias equipes se reuniam debruçados sobre os mapas. Alguns com suas equipes sendo filmadas enquanto a cena estilo “plano de batalha” ocorria.

Além do fichário, cada atleta recebe um cooler (tonel de 20 litros) recheado de brindes e produtos para serem usados durante a prova. Souvenires do hotel oficial da prova, vários litros de Gatorate Endurance Formula (a bebida mais salgada do mundo), filtros solares de todos os tipos, esponjas (para se molhar no deserto), algumas caramanholas (garrafinhas plásticas) e vários alimentos, etc… Para mim, abrir aquele tonel foi como abrir o saco de presentes do Papai Noel.

Se a organização da prova é algo que impressiona qualquer um, o cuidado individualizado que cada atleta recebe é algo que surpreende ainda mais. Em todos os eventos da prova, todos o conhecem pelo nome (mesmo antes que você se apresente).

Conforme a semana foi passando, a expectativa pela largada era cada vez maior. Mesmo com tudo já preparado há meses, lembrávamos a cada instante de mais um detalhe a cuidar.

O auge dos eventos pré-prova é o café-da-manhã da quinta-feira. Todos os atletas e suas equipes estão lá. Após um breve simpósio técnico, são apresentados alguns slides sobre o trajeto e orientações. Finalmente, o locutor oficial da prova, apresenta cada um dos atletas participantes.

Ao ser apresentado, o atleta se levanta e recebe a bandeira de seu país. O texto preparado pelo locutor sobre cada atleta é personalizado, muito bem escrito e emocionante.

Na minha vez, ele disse:

“O próximo atleta transformou o seu estilo de vida e agora ele vive o que pode ser chamado verdadeiramente de um estilo de vida TRILOSÓFICO. Senhoras e senhores, do Brasil, vamos dar as boas vindas a Mario Maddalozzo”.

“ The next athlete has changed his life style and now he lives a lifestyle that could be truly called a TRILOSOPHYCAL life style….lady and gentleman..from Brazil, please welcome Mario Maddalozzo.”

Não preciso nem dizer que dei “uma engasgada” nessa hora. Hehehe.

Também nesse dia conheci o nosso grande campeão Alexandre Ribeiro. Ele foi enormemente atencioso e veio especialmente nos procurar ao final do evento para passar algumas orientações para eu e meu técnico. Ele respondeu todas as nossas dúvidas e nos passou ainda mais motivação. Humilde, atencioso, tranqüilizador e gentil, Alexandre demonstrou o comportamento de um verdadeiro campeão.

De volta à casa, restava uma tarde para terminar de arrumar os últimos detalhes. Naquela noite deitei a cabeça no travesseiro e fiz um relaxamento para conseguir dormir. Passada a sensação do “coração saindo pela boca”, consegui dormir uma boa noite de sono.



Com o texto abaixo, começo a tentar transcrever a maravilhosa experiência que foi para mim o Ultraman 2009.

Peço a todos perdão pela demora, mas é preciso bastante tempo para assimilar tantas experiências concentradas em tão pouco tempo.

Sei que por mais esmero que tiver nos textos que seguem, não poderei explicar fielmente a experiência que certamente só irei entender por completo daqui há muito tempo.

17 de novembro de 2009 – Partida Rumo a Kona

Fechadas as malas, carreguei o enorme e desajeitado estojo da bicicleta (bike case) no porta-malas do carro.

No trajeto até o aeroporto, minha namorada seguiu com sua mãe em seu carro. Eu dirigi “o carro das bagagens”,  com minha mãe ao meu lado.

Há poucas quadras de casa, surgiu no retrovisor também o carro do meu irmão com sua esposa e meus sobrinhos. Buzinaço, bagunça pelas ruas da cidade, meus sobrinhos acenando e meu irmão com uma bandeira do Brasil estendida pela janela: era a prometida “mini-carreata” até o aeroporto. Dias antes, meu irmão havia dito que faria a mini-carreata, mas eu achei que fosse só brincadeira.

No trajeto, passamos perto do prédio em que trabalha o meu amigo e “team captain”, Jesse Arriola. Avisei pelo celular e ele também viu a passagem de nossa mini-carreata, acenando empolgado pela janela do prédio.

No aeroporto, fiquei emocionado com a festinha feita pela família naquela despedida. Minha irmã, com grande esforço, também estava lá com meus outros dois sobrinhos nos braços (um de dois anos e outro de seis meses de idade). Ela me entregou um cartão com instruções no envelope: “leia mais tarde”. Cartão esse que quando li me emocionou muito e me relembrou do sentido de todo esse desafio. A família é o que temos de mais importante nesse mundo mesmo. Nada disso teria qualquer sentindo sem eles.

Despedida rumo a Kona

Sentado na sala de espera do aeroporto em Curitiba, pude finalmente descansar mentalmente de tantos meses de organização, batalha por patrocínios, a palestra e textos escritos… E tudo mais que se tornou parte de minha vida, ao lado de minha já atribulada rotina de tantas horas de trabalho no escritório e treinos. Os últimos seis meses foram os mais agitados de minha vida.

Também desde 2004 não tirava férias, então a ida para o Hawaii era uma recompensa sem igual para mim. Finalmente, podia “descansar” um pouco. Digo descansar porque exercício para mim também é descanso. Descanso mental.

Embarcamos para São Paulo, eu, minha namorada Tiara e minha mãe Elisabeth. Os demais membros da equipe viajariam alguns dias mais tarde. Parecia ainda irreal que a última e mais importante etapa desse meu tão longo projeto estava começando. Participar de uma prova importante é sempre um desafio e uma experiência motivadora. Mas eu havia planejado o caminho mais difícil e desafiador: criar um projeto ambicioso que tornasse minha aventura “patrocinável”, que pudesse levar comigo meu técnico e que no processo conseguisse motivar muitas pessoas em suas jornadas pessoais. Finalmente, estava chegando a melhor parte de toda essa odisséia.

Nossa ida passava por São Paulo, Washington D.C. e San Francisco até chegarmos ao destino final, KONA! Nas escalas em solo americano sentimos o gélido e cinzento outono do hemisfério norte.  Mesmo assim, antes de tomar o último vôo, de San Francisco à Kona, fiz algo há muito premeditado. Fui ao banheiro do aeroporto e tirei da mala de mão uma bermuda. Trajando-a com orgulho, voltei à sala de espera transformado: aqui começa o Hawaii!

Antes da transformação

O Hawaii começa aqui!

Após algumas fotos diante do monitor que dizia “KONA”, embarcamos. Os triathletas que estiverem lendo esse texto, certamente entenderão o porquê de tanta mística em torno de uma cidade.

No avião, confesso que alertava minha namorada todas as vezes em que, por um motivo ou outro, o comandante dizia aquela palavra mágica no “sistema de som da aeronave”

- “Ele disse KONA”; “ele disse KONA de novo!” – repeti muitas vezes. Ser namorada de triathleta também exige alguma paciência. Hehehe.

Como já havia me dito um colega em uma mensagem de incentivo, dias antes da partida, ao abrirem as portas do avião, o ar tropical invadiu todo o ambiente. Agradeci a Deus por estar ali.

Ao desembarcar do avião, meus olhos estavam cheios de lágrimas e minha namorada filmou o momento em que me abaixei na pista do aeroporto de Kona e beijei o solo sagrado do triathlon mundial.

Os funcionários do aeroporto que estavam por perto sorriram e nos saudaram com calorosos “Aloha”.

Já no aeroporto, você se sente no clima da ilha. Talvez pelas músicas típicas tocadas suavemente em todos os ambientes. Eu conhecia bem aquela seleção musical. Eram as músicas que havia baixado da internet e ouvira o ano todo para me motivar durante os treinos. Clique no botão de PLAY abaixo para ouvir!

Enquanto aguardava a bagagem, reparando em outras caixas de bicicletas chegando, identifiquei mais um competidor do Ultraman. Ao me apresentar, já senti o clima “Ohana” (família) que essa prova possui. Fui de cara convidado para no dia seguinte tomar café da manhã com vários veteranos da prova.

Após pegarmos as bagagens, corri até uma loja de flores no aeroporto e comprei duas lindas “Leis” (os tradicionais colares de flores naturais) para minha namorada e minha mãe.

Todos devidamente inseridos no clima havaiano seguimos para buscar a van que havia reservado para servir como nosso carro de apoio durante toda a prova.  Após finalizar todos os trâmites, voltei sozinho pelo estacionamento guiando o carro até onde elas me aguardavam com toda a bagagem. “A nossa Nave”, como ficou apelidada logo de cara, era uma linda van zero quilômetro da Chrysler.

Saindo do aeroporto, quase às 22 horas, sintonizei uma das melhores rádios que já ouvi em minha vida, a Native FM (ouça no link http://www.nativefm.com ). Com reggae havaiano no som, a bike no porta-malas e com o perfume dos colares de flores no ar seguimos pela famosa Queen K Highway.

A felicidade era tanta que por um momento, seguimos todos em silêncio na van com sorrisos estampados nos rostos.

Olhei à minha volta e vi minha querida namorada rindo à toa. Como ela mesma explicou-me, nada de engraçado havia acontecido, ela estava “rindo de felicidade”. Parte de ser homem é querer fazer feliz as pessoas que se ama. Por isso, aquele foi um desses momentos da vida que nunca irei esquecer.

Nossa "Nave", no nosso segundo dia em solo Havaiano.

O famoso pier de Kona, local da largada do Ultraman e do Ironman

Férias merecidas

Caros amigos e leitores,

Estou curtindo merecidas férias no momento. Os calos estão cicatrizando e o rins já voltaram a funcionar há tempos. hehehe.

Mas em breve escreverei um relato sobre a minha participação no Ultraman Hawaii 2009.

Grande abraço,

Mario A. Maddalozzo.

Nao foi dessa vez

Queridos amigos,

Nao foi dessa vez que meu sonho de me tornar um Ultraman foi realizado.

Após 10km de natação, 421 km de ciclismo e 58km de corrida, tive que aceitar a verdade de que não conseguiria completar meu sonho dessa vez.

O relato mais completo dessa aventura vira quando estiver recuperado e mais descansado.

Por enquanto, o que posso dizer eh que após 58km de corrida, teria que correr os últimos 26,5 km em tempo recorde para terminar a prova dentro do prazo limite de 12 horas. Mas eu já não conseguia nem correr em minha velocidade normal, quanto mais querer bater recordes.

27 km eh um treino qualquer para min, nesses tempos de Ultraman. Mas 27 km após tudo o que fiz nos últimos dias, e fazendo o recorde da minha vida após 58km de corrida eh algo que eu sabia não seria possível mesmo. Fiz as contas, e vi que terminaria a dupla maratona entre 13 horas e 13 horas e 30 minutos. Sendo o prazo 12 horas, seria um esforço em vão.

Após a dura constatação de que não completaria a prova no tempo estipulado, pensei em completar de qualquer forma. Tentei correr e caminhar por mais 2 km. A Tiara e a mãe seguiram ao meu lado pelo acostamento. Mas vi que estava correndo o risco de uma distencao ou romper algum ligamento totalmente em vão.

Fui ate a linha de chegada cumprimentar os organizadores e os outros atletas. A Alexandre Ribeiro, campeão da prova, procurou me dar uma forca e foi muito bacana.

Apesar de não ter tido o resultado final que gostaria para essa aventura, vou embora com a sensação de que fiz tudo o que podia. Dei tudo de mim. Fui ao limite do impossível, e deixei ele tão para trás que ele chegou “a desaparecer no retrovisor”. So não cai desmaiado como um saco de batatas pela beira da estrada na corrida porque “eu não acredito em desmaiar”.

Hoje a noite vamos ao jantar festivo de encerramento da prova.

 

Um grande abraço a todos,

 

Mario A. Maddalozzo

Day 1

Antes de dormir, o Mario cantava “Every little thing is gonna be alright”. As 4h15, um grande grito acordou a casa.

Primeira tarefa do Ultraman: 10km de natação pela costa de Kona. Chegamos e Reagan, o caiaqueiro local, jah estava a postos. Sua esposa, July, nos reuniu para uma emocionante prece hawaianna. A largada foi antes de amanhecer. A previsão de 3h25 revelou-se conservadora e o UltraMario terminou a natação em 3h09m.

10min de transição. O inicio do ciclismo foi uma assustadora subida. Muitos metros acima, poucos quilômetros pra frente. Seguida, porem, de uma grata descida. As 14h30, faltavam cerca de 40 km para o fim. Mas que fim. Como o próprio Mario brincou depois, estava explicado por que a prova chama-se Ultraman e não Pinkman. Subida, subida, subida, subida, subida. Subida quase sem fim, mas com final muito feliz: 11h43 de prova.

O Mario, apesar do esforço sobrenatural, estah muito bem-humorado e otimista para o dia de amanha que parece ser um pouco melhor – embora severo – em relação a altitude, mas complexo em termos de navegação. Chove muito em Volcano no momento. Que chova a noite. Amanha, pista livre e tempo bom para o Mario. Previsao para os 276 km: 11h30 em cima da bike. Continuem torcendo e mandando mensagens. Ele leu todas há pouco e pediu para agradecer: Mahalo!

Fotos serao anexadas no site: www.triax.esp.br

Noticias do front

O clima ” Ultraman” eh contagiante e o  Hawaii realmente paradisiaco. O lugar perfeito para tamanho desafio.

Apos alguns dias de concentracao, estah tudo pronto para o grande dia.

O Mario ja deve estar dormindo e eu (Thais) e Jesse viemos enviar as noticias. Por aqui, sao 19h34 e, no Brasil, 3h34. A largada sera as 6h30 e o tempo maximo de prova e de 12horas.

PAra a natacao, a previsao eh de mar bom, porem com fortes correntes no final do percurso. O Mario sera acompanhado por um caiaque guiado pelo Reagan, membro do clube de remo local,e pelo coach ALmir.

A logistica de acompanhamento do nosso atleta eh extremamente complexa. As distancias sao gigantescas. O vento no percurso do ciclismo eh assustador. Porem, a ohana (familia) estah confiante e cada membro da equipe ja teve sua tarefa definida: direcao, navegacao, fotografia, filmagem, alimentacao, vestuario, mecanica e,claro, motivacao.

Compartilhe sua vibracao com o Mario. Amanha (ao final do primeiro dia), teremos acesso a rede e certamente ele ficara feliz com as mensagens no blog . Se voce tem o nosso telefone e tiver alguma noticia, por favor, escreva-a nos comentariosdeste post.

Perdoem a grafia, mas nao ha acentos no nosso teclado (nao que eu saiba, ao menos).

Tudo pronto

Na minha cabeça fica tocando repetidamente a música do John Denver: “Leaving on a Jet Plane”.

As últimas tarefas foram arrumar as malas, desmontar a bicicleta a acondicioná-la para a longa viagem de avião. Graças à generosidade de meu amigo Erol,  vou correr com lindas e velozes rodas Zipp emprestadas.

Com tantas tarefas a executar nesse ano, não pensei que conseguiria estar com tudo pronto antes da hora de partir.  Mas isso aconteceu nessa manhã. É meio desconcertante apenas aguardar a hora de ir ao aeroporto.

Aguardo com boas vindas o chá de espera no aeroporto. Ficar na calma de quem não tem nada para fazer é algo raro para mim.

Como agora a prioridade será a concentração para a prova, o blog terá notícias ao invés de textos mais prolongados. Também teremos algumas notícias em áudio, ao estilo “podcast”. Já durante os três dias de prova, passarei a responsabilidade sobre a publicação de notícias ao meu capitão de equipe, Jesse Arriola.

As próximas notícias serão enviadas de Kailua-Kona, Hawaii!

Veja abaixo a seqüência de desmonte da bike.

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