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Ultraman Hawaii 2010 – Para quem não esteve lá para ver de perto, aqui está uma oportunidade de conhecer o que é o Ultraman World Championship Hawaii. O video conta a prova de 2010, do Alexandre Ribeiro que fez os 3 dias de prova doente, mas seguiu para conquistar um honroso 4.o lugar.

Video do Peaceful Warrior e colega de Ultraman, Mike Le Roux, no Ultraman Hawaii 2010.

Equipe 2010: Regan, Julie, Elisabeth, eu e Paulo

Nos dias que antecederam a prova, adotamos um cronograma que me ajudou muito. Organizamos todo o material, alimentação e hidratação já na quarta-feira. Desse modo, o nível de preocupação que normalmente cerca a véspera da prova acabou diminuindo enormemente. Com tudo pronto, fiz carboload deitado no sofá, assistindo ao Rocky IV que passava na tevê.

Cestos com os equipamentos

Na manhã do primeiro dia, há uma certa ansiedade diante do pensamento que estava diante de começar uma prova que só iria terminar depois de três dias.

Mas por experiência, sabia que essa ansiedade ficaria para trás no momento em que fosse ouvida a buzina da largada.

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Recebi esse video de presente da Julie Steelman.

Ao lado de seu marido, Regan, Julie fez meu apoio durante a natação.

Valeu a torcida, Pessoal.

Pode soar estranho para alguns, mas fiz a corrida que eu queria. Treinei certo, administrando da melhor maneira possível minha disponibilidade de tempo, com a organização correta e todos os detalhes melhor calibrados. Tendo administrado tudo o que poderia ser administrado, sobrou o acaso.

Após o Ultraman 2009, fiz uma profunda análise de meus erros, acertos, e de minhas características pessoais que fossem fatores limitadores ou trunfos. Aprendi mais sobre nutrição, hidratação e reposição de eletrólitos.

Dediquei especial atenção à Hiponatremia, um desequilíbrio da concentração de sódio no sangue (seja este pela falta de sódio em si ou pelo excesso de água). Além dos sintomas: vômito, corpo não produzindo urina, urticária, indisposição e fraqueza….revendo as fotos de 2009, é fácil verificar que estava cada vez mais inchado, no decorrer da prova. Problemas renais são extremamente freqüentes em atletas de ultra-distância, especialmente nos chamados “multiday events” (provas de múltiplos dias). Mas os problemas de hiponatremia que tive em 2009 indicavam que meu corpo tem uma predisposição maior para problemas renais sob essas situações extremas (nunca tinha tido problemas como esses até então, pois só havia feito provas de no máximo um dia de duração).

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Após alguns minutos na linha de chegada, rumamos para casa. Tomei uma ducha rápida e coloquei as pernas na banheira com gelo. Depois deitei na cama com as pernas elevadas e dormi por quase uma hora.

Meu pé, já menos inchado, 24 horas após a prova

Meu pé, 15 dias após a prova.

Ao acordar, era preciso começar o tratamento do corpo. Os remendos de cola SuperBond cumpriram sua função e duraram alguns quilômetros, mas as bolhas já estavam todas rasgadas e os pés estavam em carne viva. Também estava com a pele do “períneo” em carne viva, fruto da fricção com o banco da bicicleta durante os dois primeiros dias de ciclismo.

Mas o que mais me preocupava era o inchaço enorme que eu tinha no corpo todo e principalmente nas pernas. Meus pés pareciam batatas, as veias e tendões não apareciam mais e meus dedos estavam redondos como croquetes. Era algo assustador. A solução não parecia próxima, pois meus rins não produziam uma gota de urina se quer.

Ainda mais preocupado que eu, estava meu irmão que há milhares de quilômetros procurava atender o paciente que descrevia os sintomas pelo telefone. Sem os rins funcionando, com as pernas muito inchadas e o restante do corpo todo está inchado… Era óbvio que outras áreas do corpo também estariam inchadas: como o cérebro. Sem ter para onde se expandir, por causa da caixa craniana, o risco de edema cerebral e convulsões eram as principais preocupações.

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Após uma noite curta e mal dormida, acordei para o último dia do Ultraman. Era confortante saber que, independente do que o destino me reservasse, ao final do dia dormiria em casa, sem hora para acordar.

Também era bom saber que em se tratando de corrida, ao invés de ciclismo, o número de itens a verificar havia se reduzido drasticamente. Tênis, vaselina, camisa, freqüencímetro, viseira….pronto.

Procurei não comentar muito para não deixar minha equipe preocupada, mas meu estômago e intestinos estavam péssimos ao acordar. Assim como os músculos precisam trabalhar para mover o corpo, o estômago e os intestinos também fazem “um Ultraman”. O sistema digestivo trabalha duramente tentando manter absorção das calorias, líquidos e sais minerais que o restante do corpo precisa para manter as doze horas de atividade física intensa de cada um dos dias de prova. Somando a isso, a sobrecarga de alimentação artificial e a corrosão normal causada pelo antiinflamatório tomado na noite anterior, meu estômago estava em frangalhos. As cólicas me davam a sensação de estar com o estômago para o lado de fora da barriga. Hehhehe.

Comi um Muffin e um pouco de suco de laranja. Não exatamente um café da manhã de campeões, mas foi o que deu para enfiar goela abaixo naquela hora, considerando o estado do meu estômago.

Logo o Jesse bateu na porta do quarto e estávamos prontos para partir.

No caminho, o Almir revia as estimativas de tempo enquanto passávamos pela cadeia de montanhas do dia anterior. Havia muita neblina e estava bastante frio, mas ao chegar ao local da largada, quase ao nível do mar, a temperatura era amena e o céu estrelado.

Havia um grande Buffet de café da manhã para os atletas. Ao redor da mesa, os atletas se confraternizavam na adrenalina pré-prova. Eu comi alguns pedaços de abacaxi e tomei um iogurte para tentar forrar e proteger um pouco mais o meu estômago.

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Após uma noite bem dormida na nossa pousada em Volcano Village, o pequeno vilarejo que fica no topo do Vulcão Kilauea, acordei para um novo dia.

Ainda escuro, um por um, os integrantes da equipe foram chegando à cozinha. Estava bastante frio e o chá quente era muito bem-vindo. Comi papaya, pão com geléia e queijo.

Verificados os equipamentos para o dia, segui para a largada apenas com a Tiara e o Jesse. Sentado no banco da frente, recebia o precioso carinho e apoio da minha namorada que segurava a minha mão por cima do meu ombro direito. Mais uma vez tentamos escolher uma música no rádio do carro.

Se o apuro do fechamento do primeiro dia foi estressante, por outro lado, deixou-me com certa sensação de que “o que não te mata te deixa mais forte”. Hehehe.

No local da largada, o frio era intenso. Montamos a bike e verifiquei se estava tudo ok. Voltamos para dentro do carro, enquanto o Jesse cumpria seu trabalho de “Team Captain” avisando os organizadores que eu já estava pronto para começar o dia.

Enquanto aguardávamos dentro do carro, a Tiara “teve uma conversa séria” comigo. É que antes da prova, confiei a ela a tarefa de me fazer cumprir minha previamente determinada programação alimentar. Mas como no dia anterior havia recusado alimentação em alguns dos pitstops, ela me fez prometer ingerir toda a alimentação que ela mandasse. Promessa feita e faltando poucos minutos, nos despedimos e segui para a largada.

Jesse e Tiara partiram na frente para buscar o restante da equipe e seguiram “vulcão abaixo” (ao invés de “montanha abaixo”). Eu os reencontraria apenas 40 km mais tarde, já na base do vulcão.

A largada é feita à beira da estrada, com os atletas dispersos de acordo com “a ambição” de cada um. Os que lutavam para vencer a prova largaram bem na frente. Eu fiquei no pelotão intermediário. Todos vestidos com jaquetas para se proteger do vento frio da descida, o grupo era animado mantendo sempre o clima de “Ohana” (família) que predomina entre os atletas e organizadores.

Dada a largada, vencemos o último aclive antes do início da longa descida. Quando esta começou, embalei e ganhei muita velocidade e posições (a descida é um dos raros momentos em que ser mais pesado ajuda). Chovia forte e aquela velocidade toda dava certo frio na barriga. O único susto ficou por conta de um galho de palmeira caído transversalmente no acostamento. Ele me pegou em lugar de pouca visibilidade e naquela velocidade, não poderia fazer nenhum movimento mais brusco. Desviei o tanto que pude e rezei para não me espatifar… ufa, essa passou perto!

No ponto em que reencontrei minha equipe, minha média de velocidade estava nas alturas. No Ultraman não dá para acalmar o ritmo em nenhum momento. Por isso era muito bom saber que teria aquela “reserva” na minha velocidade média para gastar no decorrer do dia.

Ao pé do vulcão, quase ao nível do mar novamente, o calor voltou. Parei rapidamente para deixar a roupa de frio com minha equipe e pegar a alimentação.

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Por incrível que pareça, dormi muito bem na véspera da largada do Ultraman. É verdade que devo isso ao relaxamento que fiz ao deitar a cabeça no travesseiro. Mas se o nervosismo estivesse exagerado, não haveria relaxamento que resolvesse.

Ao acordar pensei em tudo que tinha pela frente. Até agora, relembrando aquele momento, fico com o coração acelerado.

Saí do meu quarto e dei um grito de Tarzan com direito a punhos batendo no peito e tudo mais. Era a hora da equipe Trilosofia toda começar a funcionar.

Enquanto eu tomava café da manhã, todos se ajeitavam. Logo o Almir estava carregando as cestas com toda a alimentação e equipamentos para os próximos dias de prova. A quantidade de coisas era considerável!

Na hora de seguirmos para o píer, tentei encontrar uma música no rádio do carro que representasse aquele momento. Acabamos ouvindo “I gotta feeling”, sucesso da banda Black Eyed Pees. A música fala sobre otimismo e “a sensação de que a noite será boa”. Pareceu-me apropriado, pois, se eu chegasse ao final do dia inteiro e dentro do tempo limite, a noite seria boa mesmo.

Chegando ao píer ainda estava noite e o circo do Ultraman estava em polvorosa. As 35 vans de todas as equipes estavam estacionadas naquele pequeno trecho da Ali’i Drive.

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