Nos dias que antecederam a prova, adotamos um cronograma que me ajudou muito. Organizamos todo o material, alimentação e hidratação já na quarta-feira. Desse modo, o nível de preocupação que normalmente cerca a véspera da prova acabou diminuindo enormemente. Com tudo pronto, fiz carboload deitado no sofá, assistindo ao Rocky IV que passava na tevê.
Na manhã do primeiro dia, há uma certa ansiedade diante do pensamento que estava diante de começar uma prova que só iria terminar depois de três dias.
Mas por experiência, sabia que essa ansiedade ficaria para trás no momento em que fosse ouvida a buzina da largada.
Antes do amanhecer, no píer de Kailua-Kona, estávamos lá a Mãe, o Paulo, o Regan, a Julie e eu. Como havia feito em 2009, a Julie puxou uma oração havaiana, pedindo a proteção dos deuses protetores da ilha. Um momento muito emocionante.
Entrei na água, cumprimentei os companheiros e fiquei me concentrando enquanto aguardava. Ao soar da largada, liguei o cronômetro e me lancei naquele mar maravilhoso. Mesmo ao lusco-fusco do amanhecer era possível ver os corais ao fundo. Segui até encontrar meus amigos e “swim escorts”, Regan e Julie Steelman (os caiaques ficam há uns 200 metros da largada, para evitar confusão). Um pequeno gesto e engrenamos juntos rumo à baía de Keahou. O mar estava bastante calmo, com poucas ondas e apenas pequenas marolas. O ritmo estava bom e a alimentação também ajudou a manter a energia sempre constante.
Em determinado momento, meus caiaqueiros ficaram para trás, quando precisaram fazer uma breve “parada técnica”. Decidi então, fazê-los suarem para me alcançar novamente. Puxei o ritmo por uns 15 a 20 minutos, como se estivesse fugindo, o que foi divertido e me ajudou bastante a diminuir o tempo final da natação.
Meu plano era nadar tranqüilo, fazendo um tempo até mais lento que o de 2009. O objetivo era apenas chegar “inteiro” (evitando desgaste desnecessário) e assim poupar energias para o difícil trajeto de subidas que ainda teria pela frente naquele dia. Sendo assim, usei apenas a propulsão das braçadas.
Apesar de tudo isso, acabei nadando excepcionalmente. Completei os 10 km em 2h 53 min e 45 segundos. Fui o 13.o do geral e cheguei 28 segundos (distância visual) do Nino Colkan, o esloveno profissional que até a manhã do terceiro dia de prova era quinto lugar geral e concorria ao título.
Terminada a natação, fiz uma transição bem mais rápida que em 2009 e antes de pegar a estrada com a bicileta, vesti um colete com bolsas de gelo criado a meu pedido pela minha querida mãe. É que logo ao início do ciclismo, há uma subida com aclive de cerca de 500 metros em pouco mais de 6 km. E com o calor intenso daquele horário, o superaquecimento nesse ponto do trajeto é uma preocupação de todos os atletas. Sendo um homem grande, o risco de superaquecimento (Heat Stroke) era maior ainda. O gelo funcionou muito bem e ajudou a manter a temperatura do corpo dentro dos níveis normais, poupando meu organismo como um todo.
A alimentação turbinada que planejei me deixou cheio de energia e resistência durante todo o primeiro dia. As condições climáticas estavam absurdas (dizem que a última vez que havia sido tão ruim foi há cinco anos). O vento contra era muito forte (o sopro do vento, de tão ensurdecedor, não deixava nem ouvir os sons normais da bicicleta). Um pouco além do South Point, quando é possível enxergar o mar, o vento parecia o das montanhas Kohalas (do final do segundo dia em 2009). Chacoalhava a bike de um lado a outro. O mar tinha carneirinhos (topos das ondas com espuma provocada pelo vento) até perder de vista no horizonte. Nesse ponto, o novo clipe (barras de apoio do guidão) assoviava alto, pois o vento lateral passava por uns buraquinhos que funcionavam como apitos. Analisando a situação, se o clima estivesse dessa forma em 2009, acredito que não teria completado o primeiro dia da prova.
A subida final do Kilauea é sempre um suplício, mas cheguei a administrar o esforço para não me desgastar. Mesmo assim, consegui completar o dia em 11 horas (43 min a menos que em 2009). O melhor de tudo foi que completei inteiro, sentindo-me bem e sem dores. Também o esforço foi muito menor e consegui aproveitar e me divertir muito. Foi só questão de paciência para dosar o ritmo e terminar bem. Ao final do dia, cheguei antes de oito atletas (quase todos com muitos Ultraman no currículo).
Um pouco antes do final do dia, acabei exagerando na quantidade de líquidos. Na verdade, consumi a mesma quantidade por hora do restante do dia, mas como já estava mais frio, a quantidade de líquidos foi um pouco demais. (Mais um detalhe a ser considerado para a minha curva de aprendizado, para ocasiões futuras). Acabei o dia 600g mais pesado que pela manhã, e como não tinha desejo de urinar, os sintomas indicavam um leve quadro de hiponatremia. Corrigi o problema ao final do dia, ingerindo sais e postergando a ingestão de líquidos. Tendo que postergar a ingestão de líquidos, também acabei sendo obrigado a postergar a ingestão das bebidas de recuperação, perdendo a chamada “janela de carboidrato” (período de maior velocidade e eficiência na absorção de carboidratos, normalmente até 30 min após o termino da atividade). Mas em menos de 1h comecei a urinar e voltou tudo ao normal.
O corpo fica mais sensível após um pequeno caso de hiponatremia. Não dá para ter certeza quando um pequeno esforço extra será “a gota d’água” para os rins. Nesse equilíbrio instável, ultrapassar o limite do que os rins podem processar é fácil e rápido, mas fazê-los retomar o equilíbrio e o bom funcionamento pode ser um processo lento e delicado. A recuperação dos rins também poderia ser acelerada por algo que, em minha situação, estava fora de cogitação: um período longo de repouso (mais de 24 horas). Minhas doses de bebidas de recuperação, ao acordar e a de 40 minutos pré-largada acabaram sendo líquido demais para meus rins naquela situação.
A pesagem pré-largada, da manhã do segundo dia, denunciou que amanheci no 2.o dia de prova 2 kg mais pesado que na noite anterior e a urticaria nos braços, peito e costas deixava claro que os rins não estavam conseguindo processar a quantidade de liquido necessária. A fórmula de sais que mandei aviar funcionou bastante bem, já que os rins não pararam de produzir urina (em 2009, fiquei praticamente sem urinar durante os 3 dias de prova e até 24h após o final do último dia). Comecei o 2.o dia executando o procedimento padrão para corrigir o quadro (em condições ideais, isso deveria ser feito em repouso, mas era preciso fazê-lo enquanto pedalava a prova)… Comecei tomando sódio e tive que cortar a ingestão de líquidos e alimentos durante as primeiras 2 horas de prova. (Qualquer líquido ou comida nesse período causaria vômito, diminuiria a absorção intestinal e agravaria o problema). Voltei a produzir urina e consegui urinar quatro vezes pelo caminho, mas o problema era que como a melhora era lenta, pouco a pouco perdia a energia pela falta de alimento e acabei perdendo a paciência e tomei mais sódio.
O sódio extra não acelerou a recuperação e acabou agravando o problema do desconforto estomacal. Incluindo uma descida de 30 km, os primeiros 100 km que deveriam ser os mais rápidos do 2.o dia, acabaram sendo os mais lentos. Vomitei durante a famosa Red Road e estava me sentindo metabolicamente péssimo (não muscularmente, pois as pernas estavam sem dores) e vomitando o pouco que tentava colocar para dentro. Mentalmente estava lúcido e não tinha dores musculares. Apenas tinha uma dor esquisita dos dois lados das costas, um pouco diferente de uma “dor na lombar” (coloquei gelo nos bolsos laterais da camisa de ciclismo para tentar atenuar). Mas no geral, a sensação era como enviar os comandos para o corpo e vê-lo executando tudo como se estivesse em câmera lenta.
Ao final da Red Road, subi na balança novamente, para verificar o ritmo da recuperação. Fiquei bastante abatido ao verificar que havia eliminado menos que 1 litro do excesso de líquido. Era preciso tempo e paciência, duas coisas que eu já não tinha mais.
No caminho de Hilo (já a 5 horas de prova sem me alimentar ou conseguir ingerir líquidos), pedi para falar com o médico da prova na intenção de reverter o caso o mais rápido possível e retomar logo o ritmo. Pensei em pedir uma solução hipertônica por via venosa. Ele logo chegou e era um tremendo boa gente, atleta de Ironman e envolvido em esportes de ultra-resistência. Ele disse que eu tinha feito tudo certo até a hora em que perdi a paciência e tomei mais sódio ainda, na tentativa de acelerar o processo. Ele perguntou por dor nas costas e logo viu o gelo nos bolsos laterais traseiros (depois percebi o porque da preocupação dele: aquela dor provavelmente se tratava de dor nos rins). Após analisarmos tudo que ocorria (eu estava ruim de metabolismo, mas plenamente lúcido sobre o que acontecia), perguntei a ele:
- ”Devo vomitar?”.
Ele respondeu: – “Você vai sentir bem melhor”.
Vomitar não resolveria a Hiponatremia, mas aliviaria o desconforto estomacal agravado pelo excesso de sais que ingeri. Como estava com o estômago vazio de líquidos, tomei uns 500 ml de água e enfiei o dedo na garganta (ou quase a mão toda, segundo relatou o Paulo!). Vomitei cinco ou seis jatos, até que enxerguei o mingau de aveia que comi no café da manhã. A aveia estava amarela esverdeada, em tons verde-bili e amarelo cor de sais (parecia meio radioativa). Quem me viu naquela hora achou que eu não duraria mais 2 horas emcima da bicicleta. Depois do vômito, senti alivio no estômago, mas conversando com o médico fiquei de comer gelo durante mais 1 hora e só após isso começar a ingerir fluídos e carboidratos em pequenas quantidades. Aos poucos o estômago parou de “devolver tudo”, mas tive que pedalar por quase mais 2 horas praticamente em jejum e sem ingerir fluidos.
Entre a pesagem ao final de Red Road, a decisão de chamar o apoio médico e o atendimento, perdi 1 hora e 30 minutos. Seria preciso muita raça para compensar o prejuízo.
Nisso já estava saindo da cidade de Hilo e pedi ao Paulo que fizesse algumas contas considerando velocidades medias diferentes estipuladas para trechos planos, de subida e de descida. Era uma conta praticamente impossível, mas como o Paulo consegue fazer contas enormes de cabeça, tinha fé que com o luxo de uma folha de papel e caneta ele poderia fazer misérias. Feitas as contas, o Paulo conseguiu me dar uma estimativa de tempo de chegada e a média de velocidade que precisaria manter. Zerei o odômetro da bicicleta, zerando as informações do trajeto até ali e começando o dia “do zero”. Comecei a forçar o ritmo e a ingerir alimentos, regados apenas ao gelo que comia. Depois de mais uma hora recomecei a ingerir líquidos em pequenas quantidades, pedindo para que minha equipe começasse a concentrar minha alimentação (usando menos líquidos para diluir). Demorou, mas o plano estava dando certo e a capacidade de processar líquidos e absorver alimentos aos poucos voltava ao normal.
Apertei o ritmo o máximo que pude. Foi uma tarde muito longa de muitas subidas. Em alguns trechos, colocava a marcha mais pesada e pedalava em pé, ouvindo o barulho do pneu pela aceleração de cada pedalada. Era uma tremenda aventura e estava me divertindo muito.
Mesmo ainda um pouco fraco por ter pedalado as primeiras 6 horas do dia praticamente em jejum e sem líquidos, na segunda metade do dia (que normalmente é a metade mais difícil), estava pedalando bem mais fácil e rápido que em 2009, trecho a trecho. O esforço era bem menor. Se não tivesse tido problemas pela manhã, teria terminado o dia em tempo recorde novamente, ao menos uma hora a menos que o tempo do ano passado.
O longo caminho de subidas parecia sem fim e a pequena cidade de Waimea (cidade há 45 km do final do 2.o dia) não chegava nunca. Quando estávamos quase lá, furou o pneu traseiro da bike. Por precaução, eu havia comprado um segundo telefone, que deixei desligado na bike, apenas para chamar a equipe em caso de problemas. Assim que parei, liguei o celular e os avisei. A troca da roda traseira durou menos de 5 minutos.
Ao entrar na cidade de Waimea, alguns trechos mais planos eram a senha para ganhar velocidade novamente. Passei pela cidade na faixa dos 50 km/h e só diminui porque uma caminhonete não saía da minha frente. Enquanto a van da equipe ficou presa no trânsito “urbano”, segui em ritmo maluco saindo da cidade e comecei a subir a cadeia de montanhas Kohalas. Estava um vento muito forte, como é de costume no trecho. Logo começou a chover também! Já estava anoitecendo. O David Cobb da organização da prova, que estava comigo quando fui atendido pelo médico da prova uns 170 km antes, voltava de carro para ver quem estava por vir. Ele cruzou comigo numa das curvas da subida e me olhou com um sorriso com um misto de espanto e alegria que me deixou até um pouco emocionado. Ele puxou a cabeça para trás em um ato involuntário de surpresa, e gritou pela janela do carro: “You stud, you!!!” (algo como: “Seu garanhão!). hehehehe.
Quando cheguei ao topo havia anoitecido completamente. A descida das Kohalas, pouco mais de 21 km, como já é tradicional foi mais um festival de horrores para a equipe que me assistia enquanto me seguiam com a van. O vento era pior que do ano passado (chacoalhava lateralmente, como se os dois pneus estivessem estourados), chovia forte e dessa vez estava totalmente escuro! O farol da bicicleta produzia um foco iluminado de um metro quadrado, que por sua limitação funcionava mais como “auxílio à sua intuição” do que qualquer outra coisa. O limite de velocidade para carros era 25 milhas por hora e o Paulo me seguia com a van a 45 milhas por hora, tentando ajudar a iluminar o caminho. Graças a Deus o escuro não permitia que eu visse o meu velocímetro. Pelos registros, estava a maior parte do tempo na casa 65 km/h. A qualquer momento podia decolar por uma ribanceira, montanha abaixo. Havia carros que queriam nos ultrapassar, mas não conseguiam por causa da velocidade e pelas curvas fechadas. E isso tudo com a bike chacoalhando com as rajadas de vento. O Paulo disse que via o pneu traseiro derrapando de um lado para outro. Hehehe. Foi uma insanidade. Na metade da descida, rezei para aquilo acabar logo, pois eu não estava mais agüentando o nível de tensão e adrenalina de descer aquelas montanhas naquela velocidade, no escuro e na chuva. Eu sabia o tamanho do risco, mas era preciso arriscar.
Quando finalmente chegamos ao final da descida, a velocidade e as curvas não permitiam que a van me ultrapassasse para mostrar o caminho. Naquela adrenalina toda e estando uma escuridão total, acabei virando uma quadra antes. O pior é que era algum tipo de bairro sem saída. Quando me alcançou, o Paulo buzinou e fez uma manobra de filme que quase pareceu um cavalo de pau com a van. Hehehe. Foi cômico. Viramos a volta e tive que pegar umas subidas retornando. De volta ao caminho certo, já tinha dado por perdida a chegada (na hora da minha virada errada, acabamos perdendo uns 5 minutos e vimos que “ Inês já era morta”). Descemos o último km em ritmo enlouquecido mesmo assim e fiquei meio abismado ao ver na chegada o pessoal da organização me esperando e fazendo festa.
“Misteriosamente”, o relógio estava congelado em 11h 59min e 58 segundos. O Ultraman se preza por ser uma “Ohana” (família). E eu tenho meu carisma e sou um cara atencioso e carinhos com todos. O pessoal decidiu que por eu não ter desistido após mesmo após atendimento médico no km 90 da prova e ter tocado adiante por mais 186 km….eu merecia ao menos uma chance de correr a dupla maratona do dia seguinte. Os organizadores me deram uma chance como se fosse um filho.
Eu não entendi direito, eu disse que não era justo…. Mas todos insistiram e acabei indo tomar banho meio contrariado. Todos com quem conversei pareciam convencidos que eu merecia a chance.
Terminei o dia com terríveis dores nas costas, certamente por ter pedalado tanto tempo sem alimentação ou líquidos. Também com um pouco de dificuldade para caminhar até a massagem. Ao final do dia, estava 3,5 kg mais leve pela manhã.
A mulher da massagem caprichou e puxei papo para ela perder a noção do tempo e prolongar o tratamento. A massagem durou 1h30 e ajudou muito.
Fui dormir achando que a chance de não conseguir nem largar era de 60%. Mesmo assim, com a ajuda da mãe preparei os pés com as técnicas de enfaixamento que aprendi no livro que li. Estava pronto para ao menos não perder várias camadas de pele dos pés, como no ano anterior.
No meio da noite, levantei para ir ao banheiro e não precisei mais me escorar nas paredes como precisara algumas horas antes. Vendo a chance de correr, ingeri as doses pré-calculadas de proteína e carboidratos diversos. Dormi novamente e acordei um pouco mais recuperado. Depois de 5 horas de sono, acordei, me vesti e fui até o estacionamento correr 10m para ver se tinha condições. As pernas funcionavam bem e sem dores, me sentia bem melhor que em 2009, mas tinha uma genuína e inconfundível dor na lombar que estava “fueda”.
Se tinha chegado até ali, valia a pena largar e ver no que iria dar. Nos treinos sempre levo 30 min de corrida para aquecer. Uma vez aquecido, poderia ser que a maior parte das dores diminuísse. Não consegui comer café da manhã, mas ingeri calorias em forma líquida concentrada. Não era o ideal, mas era o melhor possível naquela hora.
Comecei a correr em ritmo bem melhor que o de 2009. Depois de uns 12 km passamos Calminex Ice nas costas e isso aliviou as dores. Mas depois de uns 15 km comecei a diminuir a velocidade. Também não estava 100% do estômago. Logo as urticárias (sintomas da hiponatremia) voltaram com tudo e os tênis normalmente folgados começaram a apertar os pés. O médico da prova me disse para retomar a ingestão de sódio (600mg de por hora). Estava sentindo uma pressão estranha na cabeça sempre que apertava o ritmo e minha freqüência cardíaca parecia oscilar um pouco demais entre os trechos mais fortes e outros mais amenos. Logo percebi que conseguiria completar uns 70 a 72 km em 12 horas.
Em 2009, havia corrido 60 km e acabei com a musculatura esgotada, perdi quase todas as camadas de pele dos pés por causa das bolhas, arrisquei demais ao ignorar a hiponatremia (risco de edema cerebral) e no geral demorei entre 3 e 4 meses para me recuperar. Como sabia que não iria completar, “tive a calma e a paz daqueles que não tem alternativa”. Poderia correr os 70-74 km e passar quatro meses me recuperando (e quem sabe engordando pela falta de exercício). Ou poderia parar antes de me machucar e continuar evoluindo meu condicionamento a partir do ponto em que estava naquele momento.
Diante dessas escolhas, corri até o km 23, entrei na van e liguei para avisar os organizadores. Ao contrário de 2009, não chorei, nem fiquei tão triste.
Talvez não tenha ficado tão triste porque os erros foram inéditos, os problemas foram todos contornados ou atenuados pelo conhecimento que absorvi esse ano estudando.
Talvez não tenha ficado tão triste porque os problemas que tive não me pegaram de surpresa. Um de meus pontos fracos analisados era a predisposição à Hiponatremia e os rins sempre foram uma preocupação minha. Também, ao treinar enquanto emagrecia 15 kg durante o ano, sempre precisei manter um déficit calórico importante. Precisando emagrecer, nunca pude treinar ingerindo a quantidade de calorias e líquidos que uma pessoa do meu tamanho precisaria ser capaz de processar durante uma prova como o Ultraman. Em outras palavras, treinar o organismo para processar tanto alimento e líquidos não era possível, já que emagrecer precisaria vir em primeiro lugar.
Acima de tudo, fico feliz porque descobri um novo jeito de administrar minha saúde, mudei meu jeito de treinar e me alimentar e consegui evoluir muito. Acredito que com esse ano de tantos estudos e treinos consegui um salto importante na minha saúde que vou levar para a vida toda.
Após avisar a organização, fomos até um tipo de bairro-resort e comi peixe ao molho tártaro (por algum motivo estava imaginando isso no meio da corrida). Depois disso, fomos até uma praia linda, entrei no mar. Sai da água e deitei numa toalha na sombra e ronquei profundamente por 1h 30min.
Depois fomos à chegada e vimos o Alexandre Ribeiro terminando. Ele ficou doente nos dois primeiros dias de prova, com um problema parecido com o meu (pelo que percebi pelos sintomas). No fim, quem ganhou foi um australiano gente boníssima, o Mike LeRoux.
Sobre o Ultra, ainda tentando entender esse estranho senso de satisfação, assistia a uma entrevista do George Soros na TV ainda na casa em Kona. Ele disse uma frase que traduz boa parte do meu sentimento: “People are failures for never failing…people have the obligation of trying things that are hard…” (traduzindo: “As pessoas são fracassos por nunca fracassarem… as pessoas têm a obrigação de tentar coisas que são difíceis.” ).
Vai ver que é isso. Eu me divirto fazendo o Ultra mais do que qualquer outra prova que já fiz.
Assim como minha primeira maratona ou meu primeiro IronMan, o Ultraman foi uma mola propulsora que me deu forças e motivação para conquistar recompensas que vão muito além do momento da linha de chegada. E ele ainda irá me ajudar a conquistar muito mais.
Grande abraço a todos. Agora é relaxar…e começar a planejar a próxima aventura.
















Grande Ultra Mário.
Te escrevi uns 2 ou 3 meses antes da prova dizendo que tinha descoberto seu “segredo” e estava feliz de ver seu nome novamente na lista de atletas que largariam no Ultraman.
Fico novamente feliz por ver sua força de vontade, sua raça e sua disposição pra pesquisar e apresender TANTO sobre tudo o que cerca uma prova desse tipo!
Parabéns! Você é “fueda”!
Abraço
Sensacional, Mariom! É bonito de ver que todas as as tuas conquistas passam longe da mera circunstância. Você faz por merecer cada uma delas. Que em 2011 vc continue sendo o cara mais “fueda” que eu conheço! Um grande abraço!
Grande Mário,
Mais uma grande experiência e uma grande batalha.
Como sempre, a sua vitória está na tentativa de chegar a vitória.
Parabéns mais uma vez.