Por incrível que pareça, dormi muito bem na véspera da largada do Ultraman. É verdade que devo isso ao relaxamento que fiz ao deitar a cabeça no travesseiro. Mas se o nervosismo estivesse exagerado, não haveria relaxamento que resolvesse.
Ao acordar pensei em tudo que tinha pela frente. Até agora, relembrando aquele momento, fico com o coração acelerado.
Saí do meu quarto e dei um grito de Tarzan com direito a punhos batendo no peito e tudo mais. Era a hora da equipe Trilosofia toda começar a funcionar.
Enquanto eu tomava café da manhã, todos se ajeitavam. Logo o Almir estava carregando as cestas com toda a alimentação e equipamentos para os próximos dias de prova. A quantidade de coisas era considerável!
Na hora de seguirmos para o píer, tentei encontrar uma música no rádio do carro que representasse aquele momento. Acabamos ouvindo “I gotta feeling”, sucesso da banda Black Eyed Pees. A música fala sobre otimismo e “a sensação de que a noite será boa”. Pareceu-me apropriado, pois, se eu chegasse ao final do dia inteiro e dentro do tempo limite, a noite seria boa mesmo.
Chegando ao píer ainda estava noite e o circo do Ultraman estava em polvorosa. As 35 vans de todas as equipes estavam estacionadas naquele pequeno trecho da Ali’i Drive.
O píer estava tomado pelos atletas e suas equipes. Na tradicional fila do banheiro masculino, estava a elite do Triathlon de ultra-distância mundial (e eu também). Conversei com Richard Roll, atleta americano eleito por revista Men’s Health como o homem mais em forma dos Estados Unidos. Ele comentou comigo que para ele, o pior era a exaustão mental causada pelas preocupações com detalhes de última hora (“…trouxe tudo que precisava?! E a comida será suficiente?!”). Depois da largada, segundo Roll, é que os atletas começam a relaxar a cabeça. Era como eu estava me sentindo também.
Logo encontramos meu caiaqueiro, Regan Steelman e sua esposa Julie. Eles nos foram indicados pela organização da prova e foram simplesmente sensacionais. Julie trouxe Leis (colares tradicionais de flores) para todos da equipe e um especial (normalmente usado apenas pelos guerreiros havaianos) para mim.
Quase ao amanhecer, naquela ilha tão remota do Pacífico, nos demos as mãos e formamos um círculo. Julie então entoou uma linda canção em havaiano, convocando a proteção dos deuses da ilha. Não preciso nem dizer que foi um momento inacreditável.
Terminada a oração, era hora de vestir a roupa de neoprene, passar filtro solar e consumir a última alimentação. A despedida foi emocionada e todos estavam chorando. Não poderia ficar faltando o sinal da cruz feito na testa que minha mãe sempre faz nessas horas.
Todas as equipes assistiam de cima do píer, enquanto apenas os atletas e alguns fotógrafos permaneciam na praia. Desci para os degraus para a praia e entrei no mar para algumas braçadas. Até no lusco-fusco da madrugada era possível ver os corais no fundo. Esse mar do Hawaii não existe. Voltando à praia fiquei me alongando e cumprimentando os demais atletas. Pensei que tudo aquilo parecia um sonho e que um dia contaria essas histórias para meus netos que ouviriam com olhar incrédulo.
O sol ainda não havia aparecido totalmente no horizonte, quando uma contagem regressiva envolvendo todo o público elevou a adrenalina ao máximo. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1….e ouvimos a sirene. Deslizei para dentro d’água. Comecei a encaixar as braçadas lado a lado com o píer e na saída da baía encontrei meu caiaqueiro Regan e meu técnico Almir (em um caiaque duplo). O Almir acenou e fez sinal para frente. Embora o começo da prova não tenha uma correnteza muito forte, dá para perceber que a correnteza é contrária desde o início. A água mais fria da correnteza passava pelo corpo como se estivesse nadando em um rio (um rio não muito caudaloso, mas constante).
Segui paralelo ao caiaque, apenas olhando os sinais do Almir. Depois de uns 10 minutos, o Almir fez sinal de positivo, avisando que o ritmo estava bom. Passados 40 minutos, parei alguns segundos para me hidratar pela primeira vez. O gentil Regan também procurou me motivar nessa hora (“You are doing great, Mario” – “Você está indo muito bem, Mario”).
Aumentei um pouco mais o ritmo e seguimos adiante. Pelo caminho senti três pequenas queimaduras de água-viva, uma na mão e duas no parte entre o lábio e o nariz. A grande quantidade de águas-vivas nessa época do ano é a razão pela qual o uso de neoprene é liberado nessa prova. Mesmo com o neoprene, todos os caiaqueiros levam consigo um remédio para primeiros-socorros em caso de queimadura por água-viva. Como as queimaduras apenas doeram, mas não me machucaram, não foi preciso perder tempo passando a tal medicação.
Na metade do trajeto, havia um trecho mais agitado, com marolas mais altas. É que nesse trecho, existe um refluxo do mar que volta após chocar-se com a costa. As ondas indo e voltando ao mesmo tempo chacoalham tudo.
Em seguida, comecei a pensar que a natação estava “na hora de acabar”. Foi então que olhei para a costa e vi o hotel Outrigger (hotel oficial da prova) e vibrei com um: “Opáaaa!”. Era o sinal de que a transição já estava próxima.
Mas antes de poder deixar a água, havia um último obstáculo. Era a forte correnteza da entrada da baía onde ficava a chegada. O trecho é famoso pela intensidade para um trecho de menos de 300 metros.
Na véspera da prova, um dos organizadores nos contou sobre o famoso triathleta Cowman (já fez todas as provas de IronMan do mundo, correndo a maratona com um chapéu de chifre). Quando participou do Ultraman, alguns anos atrás, Cowman ficou preso na correnteza na entrada da baía por mais de 40 minutos. E ele acabou desistindo.
Na entrada daquela baía era hora de mostrar porque fiquei o ano inteiro treinando natação com elástico estacionário por períodos de 30 minutos, ao final das sessões de treinos. Mirei na baía e apertei o ritmo das braçadas. Estava nadando em ritmo super-acelerado, respirando a cada quatro braçadas. Era a instensidade que eu usava para arrebentar os elásticos ao final das sessões. Hehehe. Mas olhando o recife no fundo do mar, dava para ver que eu me deslocava no ritmo de uma pessoa caminhando muito lentamente. Realmente aquela correnteza não era só lenda.
Depois de alguns poucos minutos em “ritmo de elástico”, venci a correnteza sem maiores problemas. Quem assistia da margem, viu vários golfinhos por lá. Confesso que eu só tinha olhos para a linha de chegada.
Depois de ficar de pé, investi algum tempo em abraçar o Regan e o Almir, antes de correr pelo pórtico de chegada. Eles foram perfeitos. Meu tempo de natação foi de 3 horas e 09 minutos.
Chegando à zona de transição, minha equipe estava toda me rodeando. Fui logo para o chuveiro, onde depois de deixar a água correr sobre minha cabeça, respirei profundamente por três vezes. Era uma forma de “dividir o dia ao meio”, por assim dizer.
Troquei de roupa e fui besuntado de filtro solar pela minha namorada e pela minha mãe. A transição toda durou cerca de dez minutos.
Desde o primeiro metro percorrido ao deixar a transição, o relevo é de uma subida super íngreme. Nessa hora, lembrei dos colegas triathletas que falavam sempre sobre a “Subida da Raínha”, um trecho curto, mas muito difícil do trajeto do GP de Triathlon em Balneário Camboriú. Aquela primeira subida do Ultraman era como a famosa “Subida da Raínha”, só que lá a subida tinha cerca de seis quilômetros de extensão.
Aquela subida é como um tapa na cara. Além do desconforto natural dos primeiros quilômetros, uma subida tão forte como aquela o faz pensar: “E se os outros 145 km de ciclismo que estão pela frente também forem assim?!”. Hehehe.
Os primeiros 35 km da prova são de forte subida. Após isso, um trecho de sobe e desce, um pequeno trecho de descida e para finalizar, a subida do Vulcão Kilauea, com cerca de 40 km.
Logo após os primeiros quilômetros da “subida alienígena” do início, reencontrei minha equipe. Eu estava com muita sede e calor. Nessas primeiras paradas rápidas, bebi muito líquido sob a forma de Accelerade, Gatorade Endurance, água e Pepsi Diet. A possibilidade de desidratação parecia o maior perigo a ser atacado naquele momento.
Logo, o pior do desconforto do esforço inicial ficou para trás e a distância começou a passar mais depressa. Mas quando cheguei aos campos de lava do sul da Ilha, encontrei um forte vento contra. O vento era tão forte que chegou a arrancar dois dos três adesivos com o meu numeral da prova. Os poucos trechos planos ou de descida leve pareciam subidas. O vento contra estava prejudicando minha velocidade média. A minha mente estava ocupada com os cálculos da estimativa para do horário da minha chegada. No Ultraman não é possível relaxar o ritmo em nenhum momento. Eu já conhecia o trajeto e à cada curva aguardava a hora em que chegaria ao sul da Ilha, no ponto com mais vento do primeiro dia. Esse ponto também marcava o final dos campos de lava e o início da subida do Kilauea.
Quando finalmente chegasse ao sul da ilha, teria o refresco de alguns poucos trechos planos e de descida, muito sinuoso e com curvas fechadas. Mas como estava atrasado, não podia aproveitar para descansar.
Apesar das curvas fechadas e do vento forte, procurei contrapor as fortes rajadas com uma leve inclinação do corpo e segui em ritmo suicida. Ao menos para uma pessoa cautelosa como eu, andar sempre beirando os 50 km/h na descida, com curvas fortes e com o vento chacoalhando a todo instante era algo que me deixou com a adrenalina a mil.
Esse trecho mais perigoso é também o mais bonito do primeiro dia de prova. A vista do mar selvagem e azul turquesa do sul da ilha era inacreditável de tão lindo. O Hawaii te faz sentir abençoado a todo momento, como se você fosse um náufrago com a sorte de ter encontrado essas ilhas. A imensidão nunca deixa que se esqueça que está no meio do oceano sem fim.
Começada a subida final de cerca de 40 km até o topo do Vulcão Kilauea, a coisa estava dura. A subida é contínua e parece infinita. Confesso que nessa parte do primeiro dia, estava me sentindo péssimo. Eu consigo diferenciar pensamentos genuinamente meus dos pensamentos influenciados por alguma reação metabólica do organismo ou pelo instinto natural de sobrevivência. Normalmente uma pessoa positiva e perseverante, logo estava pensando no prazer que teria em me jogar à beira da estrada. Hehehe. O pior é que não pensava em parar a bicicleta e depois me deitar. Eu pensava em me jogar ao chão com a bicicleta ainda em movimento. Imaginava com deleite a pele dos braços e pernas raspando e sangrando no asfalto, enquanto buscava o meu leito esplêndido no acostamento daquela subida eterna.
Contemplei a ridícula e dramática cena que rondava minha cabeça e não foi difícil perceber que não se tratava de um pensamento “originalmente meu”. Certamente, aquelas idéias eram vindas de algum problema metabólico que estava enfrentando. Não sabia o que acontecia, mas sabia que aquilo não era normal.
Sendo o pensamento meu ou não, ele só me deixaria em paz se conseguísse substituí-lo por outro de minha autoria. Eu não desistiria por nada nesse mundo, mas o esforço seria bem mais fácil se minha cabeça estivesse recheada de pensamentos mais leves. Procurei então, um pensamento forte o suficiente para dar conta do recado. Foi aí que me ocorreu que se eu me rendesse àquela “atração fatal pelo asfalto do acostamento”, teria que explicar ao meu sobrinho de seis anos o porquê de eu ter desistido. Eu me imaginei tendo a suposta conversa com ele e logo vi que aquilo seria mesmo injustificável. O asfalto do acostamento perdeu o seu poder de sedução depois disso.
Muitos quilômetros mais tarde, o odômetro da bicicleta já marcava quase 145 km. A cada curva, imaginava que iria enxergar a entrada do camping onde ficava a chegada. Foram muitas as “últimas curvas”, até que lá pela quinta ou sexta, avistei há uns 500m o fiscal da prova.
Quando me aproximei, toda a dificuldade tinha ficado para trás e estava pronto para a minha primeira das três linhas de chegada do Ultraman. Ao passar pelo fiscal, ele perguntou qual era o meu número (mas eles haviam sido levados pelo vento contra dos campos de lava). Enquanto virava a curva para entrar no camping, eu disse a ele: “I am Mario, I am Mario”. E ele falou no WalkieTalkie: “Mario is coming in, Mario is coming in!” (“O Mario está chegando, o Mario está chegando!”) Numa prova como o Ultraman, você nunca é só um número! O Ultraman vai me deixar mimado para sempre. No Ultraman o tratamento é VIP do começo ao fim.
Os últimos 200 metros até a minha primeira linha de chegada do Ultra foi como se eu flutuasse no asfalto. O dia havia sido dificílimo. Mas eu tinha conseguido e amanhã continuaria minha jornada.
Cruzei a linha de chegada para abraçar toda minha equipe. O locutor da prova foi sensacional e sabe coisas sobre sua vida que nem você sabe. Ele narrou minha chegada falando fatos sobre mim e sobre meu desempenho naquele primeiro dia. Foi muito emocionante abraçar minha namorada, minha mãe e meus amigos queridos que lá estavam.
Eu chorei com todos eles, por uns 5 segundos. Eu digo 5 segundos porque depois disso, eles me deram uma blusa e entramos logo na van. Estava bastante frio e era preciso começar “a recuperação” imediatamente.
Fomos para a pousada no vilarejo próximo e fui direto para o banho. Minha namorada me assessorava enquanto minha mãe já começava a preparar o jantar.
Ao entrar no banheiro, um sinal de alerta: não conseguia urinar. Não dei muita importância para o fato na hora. E com o cansaço do final do dia, cheguei à improvável conclusão de que havia me hidratado com a quantidade exata de líquido que meu organismo precisava, nem uma gota a mais ou a menos. No meu raciocínio prejudicado pelo desgaste emocional e físico do dia, era por isso que não tinha urina na bexiga.
Só fui entender o que estava acontecendo quando já estava de volta ao Brasil. Relatei tudo o que sentira durante a prova e vendo as fotos, meu irmão que é médico fez o diagnóstico. Mas isso, vou contar após relatar os três dias de prova.





Mário
Teu relato deixa transparecer toda a dificuldade, todo o drama que é esta prova, tudo que passa na cabeça durante o percurso…acho que o maior desafio é manter a mente focada e tranquila, mas nessa distância deve ser quase impossível!! Na verdade, a distância a ser percorrida é um detalhe perto da guerra que deve acontecer dentro de vc…
Aguardo os demais capítulos…
Ótimo texto Marião!
Parece que estamos na garupa da bike contigo.
Ainda bem que não precisamos pedalar!
Este ambiente de competição é realmente sensacional.A adrenalina que nós, “meio atletas”, sentimos nesta hora,o frio na barriga,o nervosismo é difícil de descrever mas é uma delícia.Estamos tão vivos nesta hora,não é assim?
Quando chega este momento,bem como no final da prova eu penso sempre;
-Poxa, acho que devia ter treinado mais.
Fazer o quê? Nem sempre podemos nos dedicar tanto quanto desejamos ao esporte.
Este teu texto me dá vontade de sair do consultório e ir treinar..heheheh.
Março tamo aí.Espero não te decepcionar no triatlon de Caiobá (a natação não tá fácil cumpadi).
Mário!
estou feliz por saber que você está alcançando seus objetivos!
E mais feliz ainda por ter pedalado contigo no autódromo em uma manhã chuvosa de domingo! Isso foi bem importante para mim! Go ahead!!!!
Espero um dia poder escutar estes relatos pessoalmente.
Abraço e aguardo a continuação.
TJSS