Com o texto abaixo, começo a tentar transcrever a maravilhosa experiência que foi para mim o Ultraman 2009.
Peço a todos perdão pela demora, mas é preciso bastante tempo para assimilar tantas experiências concentradas em tão pouco tempo.
Sei que por mais esmero que tiver nos textos que seguem, não poderei explicar fielmente a experiência que certamente só irei entender por completo daqui há muito tempo.
17 de novembro de 2009 – Partida Rumo a Kona
Fechadas as malas, carreguei o enorme e desajeitado estojo da bicicleta (bike case) no porta-malas do carro.
No trajeto até o aeroporto, minha namorada seguiu com sua mãe em seu carro. Eu dirigi “o carro das bagagens”, com minha mãe ao meu lado.
Há poucas quadras de casa, surgiu no retrovisor também o carro do meu irmão com sua esposa e meus sobrinhos. Buzinaço, bagunça pelas ruas da cidade, meus sobrinhos acenando e meu irmão com uma bandeira do Brasil estendida pela janela: era a prometida “mini-carreata” até o aeroporto. Dias antes, meu irmão havia dito que faria a mini-carreata, mas eu achei que fosse só brincadeira.

No trajeto, passamos perto do prédio em que trabalha o meu amigo e “team captain”, Jesse Arriola. Avisei pelo celular e ele também viu a passagem de nossa mini-carreata, acenando empolgado pela janela do prédio.
No aeroporto, fiquei emocionado com a festinha feita pela família naquela despedida. Minha irmã, com grande esforço, também estava lá com meus outros dois sobrinhos nos braços (um de dois anos e outro de seis meses de idade). Ela me entregou um cartão com instruções no envelope: “leia mais tarde”. Cartão esse que quando li me emocionou muito e me relembrou do sentido de todo esse desafio. A família é o que temos de mais importante nesse mundo mesmo. Nada disso teria qualquer sentindo sem eles.
Sentado na sala de espera do aeroporto em Curitiba, pude finalmente descansar mentalmente de tantos meses de organização, batalha por patrocínios, a palestra e textos escritos… E tudo mais que se tornou parte de minha vida, ao lado de minha já atribulada rotina de tantas horas de trabalho no escritório e treinos. Os últimos seis meses foram os mais agitados de minha vida.
Também desde 2004 não tirava férias, então a ida para o Hawaii era uma recompensa sem igual para mim. Finalmente, podia “descansar” um pouco. Digo descansar porque exercício para mim também é descanso. Descanso mental.
Embarcamos para São Paulo, eu, minha namorada Tiara e minha mãe Elisabeth. Os demais membros da equipe viajariam alguns dias mais tarde. Parecia ainda irreal que a última e mais importante etapa desse meu tão longo projeto estava começando. Participar de uma prova importante é sempre um desafio e uma experiência motivadora. Mas eu havia planejado o caminho mais difícil e desafiador: criar um projeto ambicioso que tornasse minha aventura “patrocinável”, que pudesse levar comigo meu técnico e que no processo conseguisse motivar muitas pessoas em suas jornadas pessoais. Finalmente, estava chegando a melhor parte de toda essa odisséia.
Nossa ida passava por São Paulo, Washington D.C. e San Francisco até chegarmos ao destino final, KONA! Nas escalas em solo americano sentimos o gélido e cinzento outono do hemisfério norte. Mesmo assim, antes de tomar o último vôo, de San Francisco à Kona, fiz algo há muito premeditado. Fui ao banheiro do aeroporto e tirei da mala de mão uma bermuda. Trajando-a com orgulho, voltei à sala de espera transformado: aqui começa o Hawaii!

Antes da transformação

O Hawaii começa aqui!

Após algumas fotos diante do monitor que dizia “KONA”, embarcamos. Os triathletas que estiverem lendo esse texto, certamente entenderão o porquê de tanta mística em torno de uma cidade.
No avião, confesso que alertava minha namorada todas as vezes em que, por um motivo ou outro, o comandante dizia aquela palavra mágica no “sistema de som da aeronave”
- “Ele disse KONA”; “ele disse KONA de novo!” – repeti muitas vezes. Ser namorada de triathleta também exige alguma paciência. Hehehe.
Como já havia me dito um colega em uma mensagem de incentivo, dias antes da partida, ao abrirem as portas do avião, o ar tropical invadiu todo o ambiente. Agradeci a Deus por estar ali.
Ao desembarcar do avião, meus olhos estavam cheios de lágrimas e minha namorada filmou o momento em que me abaixei na pista do aeroporto de Kona e beijei o solo sagrado do triathlon mundial.
Os funcionários do aeroporto que estavam por perto sorriram e nos saudaram com calorosos “Aloha”.
Já no aeroporto, você se sente no clima da ilha. Talvez pelas músicas típicas tocadas suavemente em todos os ambientes. Eu conhecia bem aquela seleção musical. Eram as músicas que havia baixado da internet e ouvira o ano todo para me motivar durante os treinos. Clique no botão de PLAY abaixo para ouvir!
Enquanto aguardava a bagagem, reparando em outras caixas de bicicletas chegando, identifiquei mais um competidor do Ultraman. Ao me apresentar, já senti o clima “Ohana” (família) que essa prova possui. Fui de cara convidado para no dia seguinte tomar café da manhã com vários veteranos da prova.
Após pegarmos as bagagens, corri até uma loja de flores no aeroporto e comprei duas lindas “Leis” (os tradicionais colares de flores naturais) para minha namorada e minha mãe.
Todos devidamente inseridos no clima havaiano seguimos para buscar a van que havia reservado para servir como nosso carro de apoio durante toda a prova. Após finalizar todos os trâmites, voltei sozinho pelo estacionamento guiando o carro até onde elas me aguardavam com toda a bagagem. “A nossa Nave”, como ficou apelidada logo de cara, era uma linda van zero quilômetro da Chrysler.
Saindo do aeroporto, quase às 22 horas, sintonizei uma das melhores rádios que já ouvi em minha vida, a Native FM (ouça no link http://www.nativefm.com ). Com reggae havaiano no som, a bike no porta-malas e com o perfume dos colares de flores no ar seguimos pela famosa Queen K Highway.
A felicidade era tanta que por um momento, seguimos todos em silêncio na van com sorrisos estampados nos rostos.
Olhei à minha volta e vi minha querida namorada rindo à toa. Como ela mesma explicou-me, nada de engraçado havia acontecido, ela estava “rindo de felicidade”. Parte de ser homem é querer fazer feliz as pessoas que se ama. Por isso, aquele foi um desses momentos da vida que nunca irei esquecer.



