O Ultraman é uma prova desafiadora. Quando as pessoas tomam ciência da sua magnitude surgem as seguintes questões: “Conseguirei completar a prova?”; “Tenho capacidade para encarar tudo isso?”; “Qual é o tipo de treino para enfrentar esta distância?” Estas perguntas fazem parte do universo da ultra distância.
Eu, como técnico, devo tornar este caminho o mais agradável possível. Antes de falar do treinamento, o importante para enfrentar a distância do Ultraman é saber onde cada um quer chegar. Com o Mario Maddalozzo, o objetivo da atividade física é perceber o processo evolutivo do seu corpo e mente, manter uma boa forma física, competir sem metas rígidas de tempo e desafiando os próprios limites. Ele trabalha, possui seus compromissos e ainda treina para o Ultraman. Organizamos a sua rotina e não pensamos que é impossível enfrentar esta “distância de maluco”. Desenvolvemos uma programação capaz de atender às necessidades fisiológicas da competição. Mas que, ao mesmo tempo, permita a ele exercer sua profissão, e ainda ter seu horário de lazer, apesar de pouco.
As sessões de treinamento foram distribuídas durante a semana. São seis dias de treino, sendo que destes, três dias contam com natação e corrida, por terem exigências musculares diferentes. Os outros três dias contam com apenas uma modalidade: o ciclismo. Além disso, estão previstos exercícios de resistência muscular duas vezes na semana e um dia de descanso composto por massagem ou alongamento.
Desta maneira, ajustamos tudo de forma a encaixar seu trabalho e compromissos sociais. Na prática, o dia completo de treino e trabalho não dá espaço para mais nada. Aí está a diferença entre o triatleta profissional e o amador. O triathlon para o Mario é uma prática estimuladora de hábitos saudáveis, que traz saúde física e mental. Além de ser uma fonte de motivação na busca de melhor qualidade de vida e satisfação pessoal. A performance é apenas um subproduto deste processo todo.
Com o atleta amador, existe a necessidade de entender que um evento social com a família ou amigos, que termine mais tarde, não prejudicará seu treino. Pelo contrário pode ajudar em seu bem-estar emocional e motivá-lo em seu próximo treino. A falta de tempo para fazer qualquer coisa que não seja treinamento, o “acordar um pouco mais tarde”, não mata ninguém. Para quem tem uma vida mais agitada, manter-se treinando é um grande desafio. Por isso, reavaliamos sempre nosso plano de treinamento. Com o Mario, após seu último treino longo de corrida, 60 km, o desgaste foi grande. Como o treino aconteceu no domingo, o plano original era que ele tivesse apenas um dia de descanso para recuperação na segunda-feira; devendo voltar ao ciclismo na terça-feira em um treino de longa duração, porém leve e com muito giro. Conversando com ele, notei o quanto estava cansado. Então optamos por reduzir o ciclismo daquele dia quase pela metade e demos a ele mais um dia de repouso dos treinos de corrida. Com isto, estou buscando um desempenho melhor.
Para se ter “o termômetro” para medir a necessidade desses pequenos ajustes, é preciso considerar as características particulares de cada atleta, seu objetivo estipulado para o esporte, sua rotina profissional e pessoal.
O nosso planejamento para o Ultraman começou em janeiro de 2009. O Mario ligou-me, comentando sobre a prova e de sua intenção de tentar a inscrição. Como nos desafios anteriores, sabia, desde aquele momento, que ele reúne as condições necessárias para enfrentar a prova. Mario é um aluno que evolui progressivamente, sem queimar etapas. Ele possui técnica, força e adaptação fisiológica desenvolvida ao longo dos anos de treino de triathlon. Enfrentar um Ultraman sem antes ter passado por provas menores como meia-maratonas, maratonas, triathlons olímpicos, meio-ironmans e ironmans, seria uma falta de respeito com o seu próprio corpo e com a prova. Existe a necessidade de se ganhar lastro, aprender a lidar com a dor, as adversidades e o preparo psicológico das provas. Ano após ano, faz-se um novo ciclo com novos volumes de treino e novos parâmetros. Isto é fundamental no treinamento. É com essa seqüência de ciclos de treinamento que vemos a evolução dos aspectos físicos (força, resistência, capacidade aeróbia, etc) galgando os degraus para um nível mais alto.
Como a definição das vagas do Ultraman só ocorre em meados de Maio e o ciclo de treinos para o Ultraman exige uma duração bastante extensa, foi preciso treinar durante os primeiros cinco meses de 2009 mesmo sem a certeza da chance de competir ao final do ano. Como o Mario havia feito o IronMan Brasil nos dois anos anteriores, começamos com uma base de resistência acumulada bastante positiva. O atleta que pretende enfrentar o Ultraman, deve ter ao menos uma base em que se possa dizer “acostumado” ao volume de treinos para uma prova de IronMan. Mesmo assim, o volume de treinos necessários para o Ultraman marca um novo patamar para qualquer um.
No processo de treinamento não podemos criar falsas expectativas. É preciso conhecer o aluno, saber qual é sua expectativa para a prova, seu retrospecto, seu objetivo para o esporte, como ele age e reage frente os desafios. Somente assim será possível avaliar até que ponto a meta é possível, dentro da sua realidade.
O treinamento não é uma simples receita. Por trás de cada treino, planilha, de cada descanso, existe o embasamento científico, cujo principal objetivo é torná-lo mais eficiente e seguro.
Utilizo alguns princípios do treinamento como:
- Princípio da Progressão onde a sobrecarga deve aumentar de forma gradual e sistemática a fim de evitar lesões ou fadiga crônica;
- Princípio da Sobrecarga que é a aplicação de estresse ou demanda maior do que o normal sobre o sistema fisiológico ou sobre um órgão, resultando num aumento da força ou na função dos mesmos;
- Princípio da Individualidade que é o mais importante. Este mostra a necessidade de se ter consciência que cada atleta tem uma capacidade diferente dos demais, olhar e ouvir cada um como sendo único. Ter consciência que cada um tem uma capacidade diferente de entender e enfrentar as situações é regra importante no treinamento.
No próximo artigo comentarei sobre os exercícios específicos e a periodização, que é a divisão do programa de treinamento para o Ultraman.
Almir João Brandalize –é diretor técnico da Triax Multisports e responsável pela equipe de Triathlon. É especialista em Treinamento Desportivo; treinador de Triathlon há 10 anos e praticante da modalidade há 15 anos.


Marião,
Com um técnico desses, o Ultraman está no papo.
Parabéns pelo excelente artigo do Almir.
Abraços!
Sergio