Nesse domingo, fiz meu treino mais duro até aqui: 60 km de corrida.
Comecei o dia as 04h50min. Tomei café da manhã, revisei a organização de alimentação e hidratação para o dia e em vão olhei a previsão do tempo: 15 a 21 graus, nublado com 20% de probabilidade de chuva.
Dividi o treino em três partes de 20 km cada. O percurso deste super treino começaria com os 20 km da Corrida da Serra da Graciosa. Muito tradicional, esta desafiante corrida começa ao nível do mar e termina a cerca de 900m de altitude. O trajeto é praticamente inteiro de subidas, sendo uma delas com 14 km de extensão. Todos os atletas seguem de Curitiba em ônibus fretados pela organização da prova até São João da Graciosa, ao pé da Serra.
Larguei às 9 horas, em ritmo tranqüilo, acompanhado de meu técnico Almir Brandalize e de mais alguns colegas de equipe. Durante a subida, cuidei apenas para manter minha freqüência cardíaca sempre abaixo de 140 bpm. O bate-papo durante a corrida estava animado e o tempo passou rápido. Completamos em cerca de 2 horas e 26 minutos.

Terminados os primeiros 20 km do treino, encerrei a fase que chamei de CORPO.
Na chegada, encontrei minha família e namorada que me aguardavam prontos para a próxima pernada do dia: os restantes 40 km até minha casa, em Curitiba.
Comi uma batata cozida, tomei um isotônico e segui correndo, acompanhado de minha namorada com sua bicicleta, pela longa estrada. A alimentação seria a cada 50 minutos. Nessa hora, é melhor nem pensar que o planejado era chegar a casa quase ao final da tarde.
Para “elogiar nosso esforço” em correr mais 40 km, o sol saiu de trás das nuvens e nos cozinhou na estrada. Um calor infernal. Ou melhor, o calor não poderia ser melhor, pois era um calor quase havaiano. A previsão do tempo nunca acerta mesmo.
Não demorou muito e tive que começar o procedimento de encharcar o corpo com 1 litro de água a cada 40 minutos. Água jogada no corpo refresca e é “suor que evito suar” (uma medida extra para evitar a desidratação).
Os quilômetros 20 a 30 passaram rápido. A meu pedido, o tempo foi preenchido pela minha namorada, relatando a tragédia grega “Édipo Rei”.
Logo ao final de “Édipo Rei”, meu grande amigo Sérgio Amed Silva chegou para correr ao meu lado entre os quilômetros 34 e 55. Muito animado e paciente, o Sérgio chegou com muita conversa divertida para preencher o tempo.
Durante o trajeto, recebi também o apoio de outros amigos: Luiz Iran, Rodrigo, Almir, Murilo, Viviane, meu primo Felipe e Edilson Flemming. Alguns passaram buzinando, outros seguiram alguns quilômetros de bicicleta ao meu lado, outros vieram de Curitiba após um almoço em família para me dar algumas palavras de incentivo. A todos eles devo minha gratidão.
No quilômetro 42, considerei completa a segunda etapa de 20 km que denominei: MENTE.
Lá parada na beira da estrada, sob uma árvore, estava o carro da minha querida mãe. Tudo pronto para um rápido pitstop. Batata chips para amenizar quaisquer dores no corpo (não sei o porquê, mas é um estranho truque já consagrado internacionalmente e que sempre funciona). Banana (pelo potássio), mais hidratação e renovei o filtro solar. Troquei de tênis e percebi bolhas enormes nos dois pés, na lateral dos calcanhares. Há anos não tenho calos, nem quando corro com o tênis sem meia nos triathlons mais curtos. Então tenho que culpar os tênis que estou usando há 30 dias. São os pares “Ultra3” e “Ultra4” desse ano de treinamentos (até o dia da prova estarei usando os pares “Ultra5” e “Ultra6”. O “Ultra1” e “Ultra2” já desfrutam de sua aposentadoria, figurando apenas como “tênis de passear no shopping”. Os últimos pares que comprei, estranhamente parecem mais estreitos no calcanhar. Bom seria se no Brasil vendessem os tênis em três diferentes larguras, como fazem nos EUA.
Não havia muito a fazer nessa hora. Achei que seria um pouco de exagero usar a técnica do Ultramaratonista Dean Karnazes de cortar as bolhas e enchê-las com cola SuperBonder. Além de ser apenas um treino, acho que minha mãe iria ficar “revoltada” com a cena.
Então, apenas passei mais uma grossa camada de vaselina nos pés e no tênis. Levantei e segui em diante procurando pensar em outra coisa. Começava aqui a última pernada do meu treino que eu chamei de: ALMA.
Cada quilômetro acima dos 42 seria uma nova emoção. Nunca havia corrido mais que 42 ou 43 km, então esse percurso final seria um grande aprendizado.
Finalmente, no km 49 entramos na cidade de Curitiba. Dentro do perímetro urbano, o tempo passa mais rápido, porque a mudança de paisagem e as distrações são bem mais freqüentes.
Quando corria os últimos metros antes de completar 50 km, fui tomado por forte emoção. Quis soluçar e chorar, mas só deixei emoção vir por uns dez segundos. Dei um grito e comemorei a marca brincando: “Cinquentinha! Cinquentinha! Cinquentinha KMzinhos!”.
Sei que há um mundo inteiro de ultramaratonistas, que correm mais de 100 km de uma só vez. Mas correr 50 km ainda é uma marca que impressiona a mim mesmo. Ou talvez impressione o cara sedentário que já fui um dia. Fiquei feliz porque o cansaço e o desgaste não eram muito maiores naquele momento do que ao completar 45 km. Embora não estivesse lépido nem nada, não estava sofrendo tanto quanto imaginei que estaria a esse ponto. Vai ver que esse negócio de treinar funciona….Obrigado ao meu técnico Almirzão!!!! Vai ver que 45, 50 ou 60 km, tanto faz… (sei que não é assim, mas como otimista, vou escolher essa frase para memorizar e internalizar).
Logo estava nas ruas por onde eu costumo treinar. A familiaridade com os trajetos trazem ainda mais força.
Mais um amigo veio para ver “como fica alguém que está correndo mais de 50 km” (e me incentivar, é claro). Ele me disse surpreso:
- “Você está até rindo!”.
Eu então respondi: – “Rindo estou, só não estou é lá muito correndo…. Rsrsrsrsrs!” (correndo eu estava, mas a velocidade nessa hora já rivalizava com a de uma caminhada!).
Ele se disse impressionado porque achou que eu estaria “no bico do corvo” naquela altura. Eu respondi com uma frase cujo autor desconheço, mas que gosto muito e diz:
“O que há à nossa frente, e o que ficou para trás, são pequenas coisas perto do que temos dentro de nós”.
No marco de 55 km, me despedi de meus amigos e segui novamente apenas acompanhado de minha namorada.
Percorri emocionado a rua por onde sempre passava, na época em que comecei essa minha aventura de conquistar saúde e deixei o sedentarismo. Anos atrás, passava por aquela rua quando caminhava uma hora e corria apenas os últimos 10 minutos. O tempo de corrida foi aumentando, e com o passar do tempo, logo eu não caminhava mais, apenas corria. Chorei ao pensar em quanto cresci desde o tempo dos “10 minutos de corrida” até estar ali naquele final de tarde, após 57 quilômetros percorridos.
Nos últimos três quilômetros, passei a correr sem tocar os calcanhares no chão, pois as bolhas doíam muito.
Há uma quadra de casa, fiz um pequeno exercício de perseverança e dei mais uma longa volta em direção oposta. É que se seguisse pelo caminho mais curto, ficariam faltando cerca de 400m para completar os 60 km. Correr 59,6 km não é a mesma coisa que 60 km! Faltar 400 m é a mesma coisa que faltar 10 km. Inadmissível. A sensação de dever cumprido só vem quando o dever está cumprido. Por isso, fiz um generoso desvio para não chegar a casa antes da quilometragem correta!
Quando finalmente pude fazer o último contorno, dei um pique de 4 min e 15 segundos por KM até a minha casa. Foram 400 m apenas entrecortados por um grito que veio da minha alma, um grito daqueles que não dá para ensaiar e não vem em qualquer hora. Um grito daqueles que você solta poucas vezes na vida e, infelizmente, tanta gente passa a vida toda sem soltar. Um grito mais antigo que eu mesmo. O grito que já foi dado por nossos ancestrais. O grito que te faz sentir o que é ser parte da aventura humana.
Após 60.123m percorridos, completei meu dia de treino. Cheguei em casa com algumas bolhas no pé, mas sem lesões e seis minutos antes do tempo alvo que havia estipulado.
Deitado na grama em frente à minha casa, vivi um momento de felicidade plena.


Beleza de treino, Mário! Se liga que deve estar na hora da revisão dos 10.000 km.
É isso aí Mário.
Parabéns por mais esta etapa completada.
Abraços,
Parabéns Mário!
Queria ter 1% da sua força mental…
Querido Paulo,
Você é que é exemplo de força mental, quando administra seu trabalho, sua casa e até os filhos quando a mulher e a babá não estão por perto.
Ter força mental para fazer coisas divertidas, como o Ultraman, é fácil. O difícil é vencer as rotinas do dia-a-dia.
Grande abraço,
Mario.
AEEEE MARIÃO!!!! PARABÉNS CARA!
TEZÃO MEU É ISSO AEEEEEE
Longo de 6okm, quando eu li de relance na news, logo pensei…60 de bike? Isso não é longo pô…mas quando eu li que era de corrida…..botei mais do que respeito!!!! Cara…sou cada vez mais seu fã….Com certeza vc está numa população mais do que seleta….Dá lhe ULTRAMAN!!!!!
Abração
“Corra,Mário,corra”!!
nossa!! voce corre e escreve bem…parabéns pelo trajeto e relato…
Prezado M.A.M,
Longão de 60km, abaixo do tempo previsto e ainda terminou inteiro.
Desse jeito o UM vai ficar fácil !!! rsrsr
Meus Sinceros Parabéns pelo Treino !
Ademais, Forte Abraço !
Parabéns Mário. Eu andava meio desanimado para os treinos para a Maratona de Curitiba e lendo este seu belo texto já achei aquele incentivo que faltava.
Parabéns e um grande abraço!
parabéns.Valeu.
Pena que eu não estava no km 50 para gritar .
vai mário ,só faltam 10 kms
Que orgulho!!!
Esse cara é meu irmao!
Mário!
Parabéns!!! É de arrepiar!!! Força campeão!
Quando contei para alguns entusiastas de corrida que vc faia um treino de 6o km onde estavam inseridos 20 km da subida da Graciosas, a reação é sempre a mesma: um risinho de desconfiança, principalmente naqueles como eu) que suportam no máximo uma meia maratona …
Como muitos já disseram, o Sr. Mário é parte de um grupo muito seleto de pessoas …
Ao que parece, para que (agora) já fez 60 km, 84 km será mais um “passeio” …
Parabéns !!!
Parabéns Mário, por mais essa etapa dos “sessentinha”. Lembrando que quando eu lhe conheci vc estava um “poucão” acima do peso e ninguém diria que isso pudesse acontecer hein ! Vc ultrapassou os limites e já venceu ! Vc é um orgulho para todos nós: Familia e amigos !! Abraços amigão ! Fabiano.
Marião:
Você é um monstro! Força aí que eu estou voltando para o próximo.
Abraços!
Sergio
Olá amigo….
Passando para deixar um forte abraço e elogiar esta postagem e sua página…
Realmente de tirar o fôlego!! Força, saúde e bons treinos. Inspirador!! Um abração!!
Tuco – Rumo aos 42K
Curitiba- PR
http://tcprojetotriathlon.blogspot.com/