O inverno em Curitiba não é dos mais convidativos à pratica de atividade física.
Já vi as gotas de vapor de minha respiração congelarem em minha roupa, formando uma fina camada de gelo durante os tantos treinos de ciclismo na estrada com temperatura próxima de zero. E por tradição, não importa o tamanho do frio, o mais agasalhado da turma sempre ouve aquelas brincadeiras: “Largue mão de frescura! E quando vier o frio, o que vai vestir?!”.
Correr à noite sob temperaturas muito baixas também é algo que qualquer curitibano conhece bem. Ao contrário de outros lugares do país, aqui jaquetas de corrida não são usadas para passear no shopping. Aqui ou elas “estão correndo” ou estão secando no varal. Aliando-se a luvas e gorro, fazem qualquer frio motivo de desdém.
Essa resistência ao frio sempre foi orgulho para quem mora por aqui.
Mas esse inverno em Curitiba está sendo especialmente difícil para quem pratica esporte. Fora o frio de costume, a chuva parece quase perene. A chuva vem em dois tipos: a chuva pontual, que chega ao exato momento em que sua corrida ou ciclismo estavam marcados; e a chuva José Sarney, aquela que aconteça o que acontecer, não vai embora nunca.
Nesses dias, a esteira ou a bicicleta ergométrica até quebram o galho. Mas treinos de corrida com mais de 1 hora em esteira são um verdadeiro teste de paciência. Se alguém for pesquisar, talvez descubra que correr na esteira mais que 1 hora foi usada como forma de tortura aos prisioneiros na guerra da Coréia. (Nada confirmado, mas acho que é possível.).
O ciclismo em bicicleta estacionária é até mais tolerável, desde que abaixo de 2 horas de duração e estando munido de no mínimo dois jornais e um livro. Em casa, já gastei um arsenal de filmes motivadores ao pedalar “no rolo” (equipamento que acoplado na roda traseira, permite pedalar parado em sua própria bicicleta).
Mas até esses paliativos tem o seu limite. Para mim, a gota d’água veio na última sexta-feira. Eram 17h e o frio era de 11 graus. Até aí, tudo bem. O problema era a chuva torrencial. Uma chuva daquelas de prender as mulheres dentro dos salões de cabeleireiros e de fazer o sustento dos vendedores de guarda-chuvas que surgem do nada. Uma chuva daquelas de enterrar sorrateiramente cadáver na floresta, como sempre fazem nos filmes de suspense!
Minha primeira vontade foi a de gritar: “Maldição!”.
Frustrado que estava com a situação, vesti um calção de corrida, duas camisetas longas e uma jaqueta impermeável de corrida por cima.
Ao final da primeira quadra já estava ensopado. A água congelada escorria da cabeça pela nuca e para dentro da jaqueta, trazendo uma sensação que de tão arrepiante me deixou com o pescoço e os ombros doloridos de tensão.
Mas o melhor desses treinos “destemidos” é o fato de que eles valem muito mais que os feitos em dias agradáveis e ensolarados. Eles trazem já no primeiro quilômetro um enorme senso de recompensa.
Por isso, seja grato quando for agraciado com condições climáticas miseráveis quando for treinar!
Treinar em dias muito frios, com chuva, vento e o que mais vier, traz uma sensação de fortaleza emocional e mental que é difícil de encontrar.
Os treinos são tantos e tão freqüentes que apenas alguns ficam nitidamente gravados em nossa lembrança.
Todo ciclista exagera a força do “vento contra” que enfrentado nos treinos. É algo como a relação entre pescador e o tamanho do peixe. Mas lembro com grande nostalgia do dia em que na volta de um ciclismo o céu escureceu. De repente, um forte vento lateral dava golfadas que quase arrancavam as placas de sinalização. Eu, meu treinado Almir e meu amigo Helder acabamos nos dispersando, pois ninguém conseguia ouvir o outro. Eu, mais pesado, pedalava com o corpo fortemente inclinado em direção ao vento e seguia em ziguezague a míseros 14 km/h, pelo medo de levar um tombo. Já o Almir e o Helder, bem mais leves, chegaram a parar as bicicletas e sentaram no chão perto do Guard-rail para “esperar o pior passar”. Quando finalmente cheguei a casa, minha família contou que estavam preocupados. Isso porque souberam que o vendaval havia destelhado casas, postos de gasolina e até um ginásio não muito longe de onde estávamos treinando. Hehehe.
Esse treino deixou saudade. Isso é que é um treino de verdade!
Em outra ocasião, ao participar de uma prova de ciclismo de 200 km, tive que parar a bicicleta na grama na beira da estrada e fiquei sentado em posição fetal para me proteger, enquanto levava uma surra sob a forma de uma chuva de granizo com pedras enormes!
Bons momentos aqueles!
A lembrança que fica desses treinos é sempre a melhor. Os treinos mais difíceis são aqueles que forjam o nosso espírito de esportista. Preguiça todo mundo tem. Mas ela deve ser sempre subjugada, como uma daquelas vilãs de novela (confesso que não vejo novela, mas o exemplo me pareceu bom).
Nessa sexta-feira, ao correr ensopado naquele frio e chuva, lembrei de tudo isso. E ao final do treino estava eufórico e sabia que aquele seria um desses treinos inesquecíveis.
Treinar nos dias difíceis vale em dobro!
Mesmo assim, é recomendável tomar um banho quente e vitamina C ao chegar em casa.

Nao existe tempo ruim, voce é que está mal vestido para o tempo!
Vamos lá Mario!!!
Tenho que confessar que fico esperando os teus e-mails.
Primeiro, para me estimular cada vez mais com os treinos de corrida…E segundo, porque eles são sempre muito divertidos!!
Força nos treinos! E esperamos mais notícias…
Marião …
Suas palavras são incrivelmente motivadoras. Eu sempre passo por momentos difíceis no pós prova, onde parece que não tenho motivação alguma para voltar aos treinos. O fenômeno é conhecido com “racing blues”. Lendo seus relatos me sinto muito bem e com vontade de treinar.
Que venha o tempo bom, o tempo ruim e todas as diversidades!!! Vamos treinar para “forjar nossos espíritos”!
Abraços
[...] de correr debaixo de chuva e frio descrita anteriormente (se não leu esse texto anterior, clique aqui) com totalmente não correlato fato de ter ficado [...]
Aí, Mário !
Quem disse que correr mais de uma hora em esteira é monotonia ?
Desde que o Almir me ensinou a correr, 8O% das minhas corridas acontece em esteira …
Tem que variar a inclinação, velocidade, música (ou TV) … montar um bom treino de esteira … e deixar a rua para o final de semana … mais tranquilo, sem carros na rua …
Pior é corre na Marechal (Hauer / Boqueirão) no domingo pela manhã … aquilo sim é monotonia.
Abs.